O livro “Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa”, de Jürgen Habermas, publicado originalmente em 1962 e traduzido para o português em 2003 pela Editora Tempo Brasileiro, permanece uma referência indispensável para compreender as tensões da democracia contemporânea. Habermas, herdeiro crítico da Escola de Frankfurt, reconstrói a gênese histórica da esfera pública burguesa no século XVIII, quando a ascensão do capitalismo mercantil separou as esferas privada e estatal, permitindo que indivíduos privados, reunidos em salões literários, cafés e sociedades de leitura, debatessem questões de interesse comum com base na razão pública e exercessem um controle crítico sobre o poder. Esse público pensante, inicialmente elitista mas aspiracionalmente inclusivo, transformou a opinião pública em força política capaz de moralizar o Estado absolutista, inspirando-se no ideal kantiano de publicidade como garantia de legitimidade democrática.
Contudo, o cerne da obra reside na diagnóstico de uma transformação patológica que corrompe esse ideal: com o advento do welfare state e da indústria cultural, a esfera pública perde sua autonomia, fundindo-se ao Estado e ao mercado em uma dinâmica manipuladora. A imprensa, outrora independente, converte-se em empresa comercial refém da publicidade, substituindo o debate racional pela produção de um público passivo e consumidor, manipulado por interesses privados e propaganda estatal, como nas campanhas eleitorais plebiscitárias. Essa “mudança estrutural” gera uma esfera pública aparente, onde a deliberação crítica cede lugar à aclamação emocional e à cultura de massa, antecipando males do capitalismo tardio que Habermas previa com precisão profética.
No Brasil de 2026, sob o impacto de crises econômicas persistentes, polarização política e a hegemonia das redes sociais, a tese habermasiana ganha contornos urgentes e locais. Plataformas como WhatsApp e Instagram, em vez de fomentar um discourse universal, alimentam bolhas ideológicas e desinformação algorítmica, ecoando a reconfiguração da opinião pública em espetáculo midiático que o autor já denunciava na era da televisão. A desconfiança nas instituições, agravada por desigualdades sociais e populismos de direita e esquerda, reflete a crise de legitimação que surge quando o direito social intervém na esfera privada sem preservar sua autonomia crítica, transformando cidadãos em meros eleitores manipulados. Habermas nos alerta para uma “nova mudança estrutural” digital, onde big techs e Estados corporativos ameaçam a própria essência democrática, demandando uma revitalização da esfera pública por meio da liberdade de expressão e da institucionalização do diálogo racional.
Releer essa obra hoje não é mero exercício acadêmico, mas ato de resistência intelectual contra a degenerescência da democracia, convidando-nos a priorizar o uso público da razão sobre o circo das telas e dos algoritmos. Em tempos de pós-verdade e fragmentação, Habermas oferece ferramentas para resgatar uma opinião pública autêntica, capaz de contrabalançar poderes manipuladores e reencantar a política com a força do argumento compartilhado.


