No coração do abismo, onde a escuridão parece devorar tudo, surge uma flor teimosa, símbolo de resistência e beleza inesperada. Helena Arruda, poeta antifascista nascida em Petrópolis, RJ, e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ, constrói em Há uma flor no abismo um universo poético onde o vazio se transforma em asas para o voo da palavra. Publicado pela Editora Urutau, o livro de 128 páginas revela uma voz feminina que navega labirintos emocionais, convidando o leitor a mergulhar no azul oceânico das imagens sensoriais.
A força da obra reside na capacidade de Arruda inverter o destino trágico do abismo, fazendo da queda um ato de invenção e esperança. Poemas como fragmentos de nudez à beira de lagos imóveis ou libélulas lápis-lazúli sobre águas escuras evocam vulnerabilidade e renascimento, onde o corpo e o sumo se elevam para além da matéria crua. Essa mulher habitada, que sussurra proximidade com deus, pampas e gritos altos, se afirma como dragão ou montanha, saboreando pão de canela e sereias lidas, em uma poética que converge entardeceres luminosos e palimpsestos de coragem. A poeta, professora e pesquisadora radicada em Areal, RJ, transita por temas como morte, política e o viço da pele, tecendo encontros que chamam para linhas, valões e o colo aquecido por um gato.
Em tempos de voçorocas e carne exposta, Há uma flor no abismo emerge como convite à emergência do canto, provando que mesmo no precipício germina o que finca pés na terra e floresce. Arruda franqueia um espaço-em-flor, feito de esperança, onde claridades invadem retinas e o sob a pele insiste em viver. Sua escrita, marcada por antologias e revistas literárias, reforça o poder da poesia como resistência, guiando-nos à medida do sol acordado, neblina e flamboyants floridos. Ler este livro é abraçar o minúsculo que se materializa, transformando o abismo em horizonte de paz cotidiana.


