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domingo, 25 de janeiro de 2026

Dica de Leitura: “Feminicídio de Estado” de Soraia da Rosa Mendes – A Misoginia Estatal Desmascarada

O livro Feminicídio de Estado, de Soraia da Rosa Mendes, expõe de forma implacável como ações e omissões do Estado brasileiro, especialmente durante a pandemia de Covid-19, configuram uma forma extrema de violência de gênero contra mulheres vulneráveis. A autora, advogada e pesquisadora, constrói com rigor empírico o conceito de “feminicídio de Estado”, atribuindo responsabilidade direta ao então chefe do Executivo por políticas que aceleraram mortes de travestis, transexuais, quilombolas, indígenas e gestantes. Essa análise não é mera denúncia acadêmica, mas um chamado urgente para responsabilizar o poder público por genocídios seletivos disfarçados de negligência.

Soraia Mendes inicia sua obra relembrando os direitos fundamentais à saúde e à vida livre de violência, previstos na Constituição e em convenções internacionais, para depois delinear a evolução do feminicídio como categoria conceitual, desde sua origem em contextos latino-americanos até sua tipificação no Brasil pela Lei 13.104/2015. Ela aprofunda o debate ao diferenciar o feminicídio comum do “de Estado”, definido como condutas dolosas ou omissivas de agentes públicos que perpetuam desigualdades históricas de gênero, resultando em mortes evitáveis. Durante a pandemia, o negacionismo e a priorização de narrativas misóginas expuseram mulheres marginalizadas a riscos desproporcionais, com dados oficiais revelando subnotificações e falhas em políticas preventivas.

No cerne da argumentação, Mendes analisa casos concretos de vulneração: travestis e transexuais abandonadas à prostituição sem proteção sanitária, quilombolas e indígenas sem acesso a vacinas ou territórios seguros, e puérperas enfrentando violência obstétrica agravada pelo colapso do SUS. Esses episódios ilustram como a “misoginia bolsonarista” não foi acidente, mas estratégia política que naturalizou a desumanização feminina, ecoando padrões patriarcais enraizados na sociedade brasileira. A autora conecta esses fatos a estatísticas alarmantes, como o aumento de feminicídios por armas de fogo e cortes de 90% no orçamento contra violência de gênero nos anos anteriores à pandemia.​

Essa obra transcende o período pandêmico ao questionar investigações judiciais lenientes, que frequentemente revitimiza as mulheres ao rotulá-las como “crimes passionais” ou ignorar perspectivas interseccionais de raça, classe e orientação sexual. Em um Brasil onde 2024 registrou recorde de 1.492 feminicídios, apesar de avanços legislativos como a autonomização do crime, o livro de Mendes soa profético e indispensável. Ler Feminicídio de Estado é confrontar a cumplicidade estatal na dominação masculina e demandar reformas que transformem omissões em obrigações efetivas de proteção.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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