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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dica de Leitura: “Família – Redes, Laços e Políticas Públicas”, de Ana Rojas Acosta, Maria Amália Faller Vitale e Maria do Carmo Brant de Carvalho

A coletânea “Família: Redes, Laços e Políticas Públicas”, organizada por Ana Rojas Acosta, Maria Amália Faller Vitale e Maria do Carmo Brant de Carvalho, surge como uma reflexão essencial sobre as transformações contemporâneas da família brasileira e seu papel central nas políticas sociais. Publicado em múltiplas edições pela Cortez, o livro divide-se em três partes que exploram a vida familiar, o trabalho com famílias e sua interface com políticas públicas, desafiando visões idealizadas e propondo abordagens mais nuançadas para intervenções estatais. Em tempos de proliferação de programas como Bolsa Família e o Programa de Saúde da Família, a obra questiona a eficácia dessas iniciativas ao enfatizar a família não como núcleo isolado, mas como rede extensa de laços morais e obrigações recíprocas, especialmente entre os mais pobres.​

Cynthia A. Sarti, em “Famílias enredadas”, destaca como as famílias pobres se configuram em redes que transcendem a unidade doméstica, com papéis de gênero complementares onde a mulher mantém a unidade da casa e o homem representa a autoridade moral perante o mundo externo. Essa visão contrasta com o modelo nuclear idealizado, comum nas políticas sociais, e revela como uniões instáveis e vulnerabilidades econômicas levam à “circulação de crianças” entre parentes, preservando laços de sangue e criação sem romper a rede de apoio. Tal perspectiva critica a tendência de políticas que ignoram esses arranjos culturais, tratando a família pobre como desestruturada e impondo intervenções que desconsideram suas próprias lógicas de sobrevivência e solidariedade.​

Outros capítulos reforçam essa crítica ao analisar programas reais, como o de Renda Mínima em São José dos Campos, avaliado pelas organizadoras, que expõem limitações como a temporariedade dos benefícios e a falta de integração com redes mais amplas de proteção social. Contribuições sobre avós como figuras ativas, o papel dos homens no cuidado e indicadores como o Índice de Desenvolvimento da Família (IDF) propõem ferramentas para avaliações mais precisas, priorizando o fortalecimento de competências familiares em vez de assistencialismo paliativo. Regina Maria Giffoni Marsiglia, por exemplo, discute questões para o Programa de Saúde da Família, defendendo abordagens que respeitem a rede familiar para promover saúde integral.​

Em uma sociedade marcada por desigualdades crescentes, o livro alerta para o risco de políticas que reforçam o “familismo” neoliberal, transferindo responsabilidades do Estado para as famílias sem recursos adequados, perpetuando ciclos de pobreza. Ao invés disso, advoga por escuta ativa do discurso familiar, relativizando visões profissionais etnocêntricas e reconhecendo a família como sujeito de direitos com saberes próprios sobre suas vulnerabilidades e potencialidades. Essa proposta ganha urgência no Brasil atual, onde reformas sociais demandam políticas que enredem Estado, famílias e comunidades em parcerias verdadeiramente inclusivas.​

A obra não apenas diagnostica falhas, mas ilumina caminhos para políticas que valorizem a rede de laços como base estratégica de proteção social, promovendo autonomia e dignidade familiar. Sua relevância persiste, convidando profissionais, policymakers e a sociedade a repensarem a família além de estereótipos, rumo a intervenções eficazes e humanizadas.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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