A coletânea “Família: Redes, Laços e Políticas Públicas”, organizada por Ana Rojas Acosta, Maria Amália Faller Vitale e Maria do Carmo Brant de Carvalho, surge como uma reflexão essencial sobre as transformações contemporâneas da família brasileira e seu papel central nas políticas sociais. Publicado em múltiplas edições pela Cortez, o livro divide-se em três partes que exploram a vida familiar, o trabalho com famílias e sua interface com políticas públicas, desafiando visões idealizadas e propondo abordagens mais nuançadas para intervenções estatais. Em tempos de proliferação de programas como Bolsa Família e o Programa de Saúde da Família, a obra questiona a eficácia dessas iniciativas ao enfatizar a família não como núcleo isolado, mas como rede extensa de laços morais e obrigações recíprocas, especialmente entre os mais pobres.
Cynthia A. Sarti, em “Famílias enredadas”, destaca como as famílias pobres se configuram em redes que transcendem a unidade doméstica, com papéis de gênero complementares onde a mulher mantém a unidade da casa e o homem representa a autoridade moral perante o mundo externo. Essa visão contrasta com o modelo nuclear idealizado, comum nas políticas sociais, e revela como uniões instáveis e vulnerabilidades econômicas levam à “circulação de crianças” entre parentes, preservando laços de sangue e criação sem romper a rede de apoio. Tal perspectiva critica a tendência de políticas que ignoram esses arranjos culturais, tratando a família pobre como desestruturada e impondo intervenções que desconsideram suas próprias lógicas de sobrevivência e solidariedade.
Outros capítulos reforçam essa crítica ao analisar programas reais, como o de Renda Mínima em São José dos Campos, avaliado pelas organizadoras, que expõem limitações como a temporariedade dos benefícios e a falta de integração com redes mais amplas de proteção social. Contribuições sobre avós como figuras ativas, o papel dos homens no cuidado e indicadores como o Índice de Desenvolvimento da Família (IDF) propõem ferramentas para avaliações mais precisas, priorizando o fortalecimento de competências familiares em vez de assistencialismo paliativo. Regina Maria Giffoni Marsiglia, por exemplo, discute questões para o Programa de Saúde da Família, defendendo abordagens que respeitem a rede familiar para promover saúde integral.
Em uma sociedade marcada por desigualdades crescentes, o livro alerta para o risco de políticas que reforçam o “familismo” neoliberal, transferindo responsabilidades do Estado para as famílias sem recursos adequados, perpetuando ciclos de pobreza. Ao invés disso, advoga por escuta ativa do discurso familiar, relativizando visões profissionais etnocêntricas e reconhecendo a família como sujeito de direitos com saberes próprios sobre suas vulnerabilidades e potencialidades. Essa proposta ganha urgência no Brasil atual, onde reformas sociais demandam políticas que enredem Estado, famílias e comunidades em parcerias verdadeiramente inclusivas.
A obra não apenas diagnostica falhas, mas ilumina caminhos para políticas que valorizem a rede de laços como base estratégica de proteção social, promovendo autonomia e dignidade familiar. Sua relevância persiste, convidando profissionais, policymakers e a sociedade a repensarem a família além de estereótipos, rumo a intervenções eficazes e humanizadas.


