Edward Said, em sua obra seminal de 1993, revela como a cultura ocidental serviu de pilar fundamental para sustentar o imperialismo ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX. Expandindo as ideias de “Orientalismo”, o autor demonstra que romances clássicos de escritores como Jane Austen e Joseph Conrad não eram meras narrativas inocentes, mas instrumentos sutis que naturalizavam a superioridade europeia sobre territórios colonizados. Essa análise incisiva obriga o leitor a repensar a literatura como campo de batalha ideológica, onde o colonizado é retratado como inferior e necessitado de “civilização”.
A força do livro reside na desconstrução de narrativas imperiais que permeiam a alta cultura, mostrando como elas moldaram percepções de poder e subalternidade. Said argumenta que o imperialismo não se limitava a conquistas militares ou econômicas, mas se enraizava na produção cultural que legitimava o domínio metropolitano sobre o “Outro” distante. Exemplos como as descrições africanistas ou indianistas em obras europeias ilustram como a ficção perpetuava estereótipos, justificando a exploração de povos e terras. No contexto brasileiro, essa leitura ressoa profundamente, pois evoca as representações do Brasil nas crônicas coloniais portuguesas, que pintavam o Novo Mundo como terra exótica e subdesenvolvida, ecoando até hoje em discursos neocoloniais.
Contudo, Said não se contenta com a denúncia; ele celebra as resistências culturais que emergiram nos países colonizados, como as vozes nativas na literatura anticolonial. Essa contraposição entre hegemonia imperial e contrapontos descoloniais oferece uma visão esperançosa de interdependência cultural global. Em um mundo ainda marcado por assimetrias de poder, como as intervenções midiáticas na Guerra do Golfo analisadas por Said, o livro clama por um humanismo crítico que transcenda fronteiras. Sua relevância persiste em 2026, convidando intelectuais a desmascarar novas formas de imperialismo cultural disfarçadas de globalização.

