A Carta sobre a Tolerância, publicada anonimamente em latim em 1689 por John Locke, surge como resposta às tensões religiosas que assolavam a Europa, especialmente na Inglaterra, onde o temor de uma dominação católica alimentava perseguições e guerras. Locke, exilado na Holanda por suas ideias liberais, endereça essa epístola a um amigo, defendendo que o Estado deve limitar-se aos bens civis, como vida, liberdade e propriedade, enquanto a salvação das almas pertence à esfera voluntária da Igreja e da consciência individual. Essa distinção radical entre fins estatais e eclesiásticos permanece atual, clamando por reflexão em um mundo ainda marcado por fanatismos.
Locke define tolerância como a abstenção da força para impor crenças ou cultos, argumentando que a coerção não altera convicções interiores, apenas gera hipocrisia. Ele prova que Deus e os cidadãos nunca confiaram ao magistrado o cuidado das almas, pois a força é inadequada para verdades espirituais e contraproducente, podendo impor falsas religiões em detrimento da salvação verdadeira. Assim, o Estado cristão é uma ilusão sob o Evangelho, que Cristo não instituiu como modelo político, mas moral, priorizando a persuasão sobre a espada.
Essa visão funda a laicidade moderna, alinhando-se a princípios como liberdade de crença, autonomia das leis civis ante normas religiosas e não discriminação, conforme a Declaração Universal da Laicidade no Século XXI. No Brasil contemporâneo, onde disputas ideológicas ecoam intolerâncias religiosas em arenas políticas, Locke adverte contra conluios entre poder e clérigos ambiciosos, que trocam apoio mútuo por perseguições disfarçadas de piedade. A diversidade de crenças não causa guerras, mas sua negação sim, tornando a tolerância via para a paz civil.
Os limites da tolerância são práticos: crenças que ameaçam a sociedade, violam leis civis, demandam obediência a reis estrangeiros ou negam Deus (ateísmo, aos olhos de Locke, minando pactos sociais). Mesmo assim, o critério é sempre a utilidade pública, não dogmas, preservando a esfera privada da fé sem reduzi-la ao silêncio. Em 2026, com polarizações globais, reler Locke convoca democracias a rejeitar imposições ideológicas, honrando a consciência errante como direito natural contra tiranias veladas.


