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domingo, 25 de janeiro de 2026

Cinema: “Loucademia de Polícia 4 – O Cidadão se Defende”: quando o riso encontra a vigilância do cidadão

Há algo de estranhamente enternecedor em revisitar Loucademia de Polícia 4: O Cidadão se Defende, lançado em 1987, quando a franquia já vivia de repetir piadas, trejeitos e bordões, como se a própria comédia estivesse presa a um plantão interminável. O filme retoma os personagens desajustados de sempre – Mahoney, Hightower, Jones, Tackleberry, Hooks, Zed – agora incumbidos de treinar civis comuns no programa “Citizens on Patrol”, a ideia do comandante Lassard de aproximar polícia e comunidade, transformando vizinhos em sentinelas improvisados da ordem urbana.​

A premissa é simples, quase esquemática: a Academia de Polícia abre suas portas a um grupo heterogêneo de voluntários, gente que, em outro contexto, seria apenas figurante de rua, e que aqui ganha apito, uniforme e uma parcela simbólica de poder. Do outro lado, o capitão Harris reaparece como o rosto da resistência interna, sabotando o programa e vocalizando o medo clássico de que a participação popular ameace o espaço corporativo dos profissionais da segurança, medo que, transposto para fora da tela, dialoga com as desconfianças contemporâneas em relação a conselhos comunitários, ouvidorias e formas de controle social não monopolizadas pelo Estado.​

Vista hoje, a comédia pastelão se revela mais interessante pelo subtexto do que pelos gags em si. Entre uma queda e um grito histérico, o filme encena uma disputa sobre quem tem direito de vigiar, intervir, ordenar a cidade, antecipando, de forma caricata, discussões sobre policiamento comunitário, “tolerância zero” de bairro e a linha tênue entre participação cidadã e delação permanente. Há um prazer quase infantil em ver os voluntários atrapalhados, a senhora idosa, os punks cooptados por Mahoney, todos falhando enquanto tentam “ajudar”, como se o roteiro intuísse que, quando o cidadão se arma de boa vontade e senso de missão, o caos é sempre uma possibilidade a poucos passos.​

Essa leveza, porém, não é neutra. A polícia, mesmo ridicularizada, permanece como eixo de racionalidade: é ela quem autoriza, coordena, absolve os erros e organiza o retorno à ordem depois dos desastres causados pelos civis, reforçando a ideia de que a participação popular só é legítima quando domesticada e coreografada pela instituição. O humor funciona como luva macia para um discurso duro: o sistema pode ser bagunçado, mas, no fim, funciona, e qualquer ameaça de fracasso vem da ignorância do cidadão ou da ambição de um oficial desviado, nunca de problemas estruturais da própria corporação.​

Na superfície, Loucademia de Polícia 4 é apenas mais um episódio de uma série que já havia encontrado sua fórmula e a reproduz quase mecânica e ternamente, como uma comédia de costume policial repetida à exaustão. Em camadas, porém, o filme é um retrato involuntário dos anos 1980, época em que o medo urbano, o culto à segurança e a crença no “cidadão de bem” vigilante se combinam em uma fantasia de cooperação ordeira, sem conflito, sem política, apenas com piadas, sirenes e um desfecho necessariamente feliz. Talvez resida aí seu charme anacrônico: rir hoje, sabendo de tudo o que se sabe sobre violência institucional e participação social, é também rir de um mundo que acreditava que bastava um programa de voluntários para conciliar autoridade, humor e justiça.​

O filme está disponível para locação digital em serviços como Apple TV, onde chega com sua duração breve, 88 minutos, e um elenco que inclui Steve Guttenberg, Bubba Smith e Michael Winslow, em mais uma ronda de sons, caretas e perseguições exageradas. Não é um grande filme, nem pretende ser; é um documento cômico de uma certa inocência política do entretenimento de massa, e, talvez por isso mesmo, continue a merecer uma visita atenta e um sorriso ligeiramente desconfiado.​

Nota: 6,0/10.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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