Há algo de estranhamente enternecedor em revisitar Loucademia de Polícia 4: O Cidadão se Defende, lançado em 1987, quando a franquia já vivia de repetir piadas, trejeitos e bordões, como se a própria comédia estivesse presa a um plantão interminável. O filme retoma os personagens desajustados de sempre – Mahoney, Hightower, Jones, Tackleberry, Hooks, Zed – agora incumbidos de treinar civis comuns no programa “Citizens on Patrol”, a ideia do comandante Lassard de aproximar polícia e comunidade, transformando vizinhos em sentinelas improvisados da ordem urbana.
A premissa é simples, quase esquemática: a Academia de Polícia abre suas portas a um grupo heterogêneo de voluntários, gente que, em outro contexto, seria apenas figurante de rua, e que aqui ganha apito, uniforme e uma parcela simbólica de poder. Do outro lado, o capitão Harris reaparece como o rosto da resistência interna, sabotando o programa e vocalizando o medo clássico de que a participação popular ameace o espaço corporativo dos profissionais da segurança, medo que, transposto para fora da tela, dialoga com as desconfianças contemporâneas em relação a conselhos comunitários, ouvidorias e formas de controle social não monopolizadas pelo Estado.
Vista hoje, a comédia pastelão se revela mais interessante pelo subtexto do que pelos gags em si. Entre uma queda e um grito histérico, o filme encena uma disputa sobre quem tem direito de vigiar, intervir, ordenar a cidade, antecipando, de forma caricata, discussões sobre policiamento comunitário, “tolerância zero” de bairro e a linha tênue entre participação cidadã e delação permanente. Há um prazer quase infantil em ver os voluntários atrapalhados, a senhora idosa, os punks cooptados por Mahoney, todos falhando enquanto tentam “ajudar”, como se o roteiro intuísse que, quando o cidadão se arma de boa vontade e senso de missão, o caos é sempre uma possibilidade a poucos passos.
Essa leveza, porém, não é neutra. A polícia, mesmo ridicularizada, permanece como eixo de racionalidade: é ela quem autoriza, coordena, absolve os erros e organiza o retorno à ordem depois dos desastres causados pelos civis, reforçando a ideia de que a participação popular só é legítima quando domesticada e coreografada pela instituição. O humor funciona como luva macia para um discurso duro: o sistema pode ser bagunçado, mas, no fim, funciona, e qualquer ameaça de fracasso vem da ignorância do cidadão ou da ambição de um oficial desviado, nunca de problemas estruturais da própria corporação.
Na superfície, Loucademia de Polícia 4 é apenas mais um episódio de uma série que já havia encontrado sua fórmula e a reproduz quase mecânica e ternamente, como uma comédia de costume policial repetida à exaustão. Em camadas, porém, o filme é um retrato involuntário dos anos 1980, época em que o medo urbano, o culto à segurança e a crença no “cidadão de bem” vigilante se combinam em uma fantasia de cooperação ordeira, sem conflito, sem política, apenas com piadas, sirenes e um desfecho necessariamente feliz. Talvez resida aí seu charme anacrônico: rir hoje, sabendo de tudo o que se sabe sobre violência institucional e participação social, é também rir de um mundo que acreditava que bastava um programa de voluntários para conciliar autoridade, humor e justiça.
O filme está disponível para locação digital em serviços como Apple TV, onde chega com sua duração breve, 88 minutos, e um elenco que inclui Steve Guttenberg, Bubba Smith e Michael Winslow, em mais uma ronda de sons, caretas e perseguições exageradas. Não é um grande filme, nem pretende ser; é um documento cômico de uma certa inocência política do entretenimento de massa, e, talvez por isso mesmo, continue a merecer uma visita atenta e um sorriso ligeiramente desconfiado.
Nota: 6,0/10.


