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domingo, 25 de janeiro de 2026

Cinema: “Loucademia de Polícia 3 – De Volta ao Treinamento” e a inocência possível da bobagem

Loucademia de Polícia 3 – De Volta ao Treinamento é um daqueles filmes que parecem existir fora do tempo, presos a uma década específica como um recorte de revista amarelada: 1986, o auge de uma comédia física, ruidosa e infantilizada, satisfeita em repetir fórmulas em vez de reinventá-las. Terceiro capítulo da franquia criada nos anos 80, o filme volta à mesma academia comandada por Eric Lassard e à mesma trupe de desajustados, agora convocados para salvar a escola da guilhotina orçamentária imposta pelo governador, que decidiu fechar uma das duas academias de polícia do Estado. A premissa é tão simples quanto transparente: é menos sobre formação policial e mais sobre brincar com o próprio absurdo de uma polícia composta por figuras que, em qualquer mundo minimamente sério, jamais passariam em um teste vocacional.​

Dirigido por Jerry Paris, em seu último trabalho para o cinema, o filme segura-se na química já consolidada de Steve Guttenberg (Mahoney), Bubba Smith (Hightower), Michael Winslow (Jones) e companhia, agora promovidos à posição de mentores de um novo grupo de recrutas tão atrapalhados quanto eles mesmos eram no primeiro filme. A cidade com duas academias – a de Lassard, mais caótica e “humanizada”, e a de Mauser, mais sisuda e oportunista – vira palco de uma disputa que é menos institucional e mais uma espécie de gincana de pastelão, em que tiros acidentais, carros capotados e operações fracassadas coexistem com uma obstinada crença de que, na última hora, tudo se ajeita. Vista à distância histórica, essa trama de competição entre academias soa como uma paródia involuntária da própria lógica de “produtividade” e “eficiência” que se projetava sobre as instituições públicas nos anos 80, década de reformas neoliberais, cortes orçamentários e fetichização de rankings.​

A sucessão de gags – o boxe salvador que redime os recrutas diante da comissão, a sabotagem eletrônica que desorganiza o exercício final, a intervenção improvisada dos cadetes na regata do governador – funciona como um desfile de esquetes costuradas por um roteiro que parece interessado apenas em manter a engrenagem da piada em movimento. Não se trata de humor refinado, nem de crítica social planejada, mas de uma certa poesia involuntária da trapalhada: a ideia de que a incompetência compartilhada gera laços, e que é pelo fracasso reiterado, não pelo heroísmo, que aqueles personagens se descobrem parte de um mesmo corpo coletivo. Há algo quase comovente na figura dos recrutas que não se encaixam em lugar nenhum, mas insistem em continuar tentando, mesmo que o resultado seja um caos administrado em uniforme azul.​

Ao olhar o filme hoje, é inevitável perceber o quanto ele envelheceu, tanto nos códigos de humor quanto na representação de gênero e na caricatura de minorias, marca frequente das comédias populares dos anos 80. Ainda assim, Loucademia de Polícia 3 oferece um retrato curioso de uma era em que a polícia podia ser mostrada como um conjunto de figuras essencialmente inofensivas, mais próximas de palhaços de circo do que de agentes de um aparato de força, algo quase impensável em um mundo saturado por imagens de violência policial, racismo estrutural e militarização do cotidiano. Essa distância histórica transforma o filme em documento involuntário de um imaginário ingênuo sobre a instituição policial, onde conflitos se resolvem em baile de gala, perseguições terminam em piadas e a corrupção é caricaturada na figura de um comandante vaidoso e ridicularizado.​

No Brasil, o filme circula hoje em plataformas digitais de aluguel e compra, como o Google Play Filmes, além de aparecer ocasionalmente em catálogos de streaming e serviços pagos, sinalizando o destino típico de produtos dessa geração: sobrevivem como lembrança afetiva, não como objeto de descoberta estética. Assistir a Loucademia de Polícia 3 em 2026 é menos um gesto de busca por novidade e mais um ato de arqueologia pop, em que se escava, no meio da bobagem, um pouco da inocência perdida com a brutalidade crescente do mundo real. Entre um trocadilho forçado e um tropeço físico milimetricamente ensaiado, o filme devolve ao espectador algo que, na sua despretensão absoluta, acaba ganhando valor: a possibilidade de rir do ridículo sem grandes explicações, mesmo sabendo que o tempo passou e que nada ali, rigorosamente nada, pretende ser levado a sério.​

Nota: 6,0/10.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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