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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Cinema: “Loucademia de Polícia 2 – A Primeira Missão”: riso fácil, polícia impossível

“Loucademia de Polícia 2 – A Primeira Missão”, lançado em 1985, é o tipo de comédia que parece saída de um mundo paralelo em que a polícia é menos instituição de força e mais coro de pastelões cuidadosamente coreografados. O filme acompanha os recém-formados da academia – Mahoney, Hightower, Jones, Tackleberry, Hooks e Fackler – jogados em um dos piores distritos da cidade, infestados pelo gangue de Zed, para “salvar” a ordem em trinta dias, enquanto um tenente oportunista sabota secretamente a operação para tomar o lugar do capitão Lassard. A premissa é simples, quase esquemática, mas abre espaço para uma sucessão de gags físicas, vozes e sons impossíveis, tiros exagerados e humilhações cuidadosamente distribuídas entre superiores arrogantes e criminosos caricaturais.​

Visto hoje, o filme carrega o charme datado das comédias dos anos 1980, com a fotografia ligeiramente lavada, o ritmo ágil e um humor que confia mais no corpo do ator do que na sofisticação do roteiro. A narrativa se equilibra entre a anarquia da turma de Mahoney e a rigidez patética da hierarquia policial, transformando a delegacia em microcosmo de uma instituição desmoralizada que precisa de incompetentes adoráveis para se reerguer. A gangue de Zed, por sua vez, funciona quase como um espelho distorcido da própria polícia: ruidosa, caótica, mas estranhamente organizada na sua vocação para o absurdo.​

Há algo de melancólico no riso que o filme provoca quarenta anos depois. A ideia de que um grupo de desajustados, meio sem vocação e cheios de truques, pode “salvar” uma corporação corroída por carreirismo e autoritarismo soa tão improvável quanto reconfortante. As disputas internas – o tenente Mauser conspirando para derrubar Lassard, o uso do regulamento como arma para sabotar colegas – revelam, atrás da palhaçada, um vislumbre de burocracia bélica, em que o inimigo às vezes está mais próximo do gabinete do que das ruas. O filme, sem nenhuma intenção sociológica, acaba sugerindo que a verdadeira desordem não está apenas nos becos dominados pela gangue, mas na própria lógica de poder que organiza a polícia.​

Também chama atenção a forma como “Loucademia de Polícia 2” confia na simpatia dos tipos, e não na verossimilhança da instituição que representam. Mahoney é menos um policial e mais uma espécie de malandro higienizado, que só se leva a sério na medida exata para que a cena funcione; Hightower, o gigante gentil; Tackleberry, o fetichista das armas tratado como piada ambulante; Jones, artista sonoro que transforma qualquer situação em espetáculo. Nesse carnaval de exageros, a ideia de “policiamento” se dilui em brincadeiras de bastidores, trotes, trocas de xampu por cola industrial, perseguições em ritmo de desenho animado, como se a violência pudesse ser desarmada na base da gargalhada.​

Assistir hoje a esse filme em plataformas de streaming, onde aparece sob o título internacional “Police Academy 2: Their First Assignment”, é também um exercício de arqueologia de um humor que já não se produz na mesma chave. O que antes era pura irreverência pode soar ingênuo, problemático ou simplesmente datado, mas permanece como registro de um período em que a comédia de massa ainda acreditava que bastava escalar um bando de improváveis, colocar uma gangue estridente do outro lado e deixar que o caos encontrasse, por acaso, alguma espécie de justiça. No catálogo brasileiro da Netflix, o filme reaparece como uma cápsula temporal que, mais do que fazer rir, convida a pensar sobre o quanto o riso já foi usado para maquiar instituições que, fora da tela, raramente têm tanta graça.​

Nota: 6,5/10.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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