“Loucademia de Polícia 2 – A Primeira Missão”, lançado em 1985, é o tipo de comédia que parece saída de um mundo paralelo em que a polícia é menos instituição de força e mais coro de pastelões cuidadosamente coreografados. O filme acompanha os recém-formados da academia – Mahoney, Hightower, Jones, Tackleberry, Hooks e Fackler – jogados em um dos piores distritos da cidade, infestados pelo gangue de Zed, para “salvar” a ordem em trinta dias, enquanto um tenente oportunista sabota secretamente a operação para tomar o lugar do capitão Lassard. A premissa é simples, quase esquemática, mas abre espaço para uma sucessão de gags físicas, vozes e sons impossíveis, tiros exagerados e humilhações cuidadosamente distribuídas entre superiores arrogantes e criminosos caricaturais.
Visto hoje, o filme carrega o charme datado das comédias dos anos 1980, com a fotografia ligeiramente lavada, o ritmo ágil e um humor que confia mais no corpo do ator do que na sofisticação do roteiro. A narrativa se equilibra entre a anarquia da turma de Mahoney e a rigidez patética da hierarquia policial, transformando a delegacia em microcosmo de uma instituição desmoralizada que precisa de incompetentes adoráveis para se reerguer. A gangue de Zed, por sua vez, funciona quase como um espelho distorcido da própria polícia: ruidosa, caótica, mas estranhamente organizada na sua vocação para o absurdo.
Há algo de melancólico no riso que o filme provoca quarenta anos depois. A ideia de que um grupo de desajustados, meio sem vocação e cheios de truques, pode “salvar” uma corporação corroída por carreirismo e autoritarismo soa tão improvável quanto reconfortante. As disputas internas – o tenente Mauser conspirando para derrubar Lassard, o uso do regulamento como arma para sabotar colegas – revelam, atrás da palhaçada, um vislumbre de burocracia bélica, em que o inimigo às vezes está mais próximo do gabinete do que das ruas. O filme, sem nenhuma intenção sociológica, acaba sugerindo que a verdadeira desordem não está apenas nos becos dominados pela gangue, mas na própria lógica de poder que organiza a polícia.
Também chama atenção a forma como “Loucademia de Polícia 2” confia na simpatia dos tipos, e não na verossimilhança da instituição que representam. Mahoney é menos um policial e mais uma espécie de malandro higienizado, que só se leva a sério na medida exata para que a cena funcione; Hightower, o gigante gentil; Tackleberry, o fetichista das armas tratado como piada ambulante; Jones, artista sonoro que transforma qualquer situação em espetáculo. Nesse carnaval de exageros, a ideia de “policiamento” se dilui em brincadeiras de bastidores, trotes, trocas de xampu por cola industrial, perseguições em ritmo de desenho animado, como se a violência pudesse ser desarmada na base da gargalhada.
Assistir hoje a esse filme em plataformas de streaming, onde aparece sob o título internacional “Police Academy 2: Their First Assignment”, é também um exercício de arqueologia de um humor que já não se produz na mesma chave. O que antes era pura irreverência pode soar ingênuo, problemático ou simplesmente datado, mas permanece como registro de um período em que a comédia de massa ainda acreditava que bastava escalar um bando de improváveis, colocar uma gangue estridente do outro lado e deixar que o caos encontrasse, por acaso, alguma espécie de justiça. No catálogo brasileiro da Netflix, o filme reaparece como uma cápsula temporal que, mais do que fazer rir, convida a pensar sobre o quanto o riso já foi usado para maquiar instituições que, fora da tela, raramente têm tanta graça.
Nota: 6,5/10.


