Vivemos uma época em que a verdade, em si, parece ter perdido valor; o que importa é se ela combina com o personagem que cada um inventou para si, com o partido ao qual jurou fidelidade, com o grupo de WhatsApp onde busca pertencimento diário.
Não se pergunta mais “é verdade?”, mas “serve ao meu lado?”. Se não serve, não é apenas descartada: é atacada, humilhada, ridicularizada, carimbada como “narrativa”, “perseguição” ou “armação da mídia”.
Nietzsche já apontava que aquilo que chamamos de verdade é, muitas vezes, um conjunto de metáforas e convenções tão repetidas que esquecemos que são invenções humanas, organizadas para nos poupar do caos do real.
Em vez de amor desinteressado ao que é, busca-se uma verdade que proteja, que ofereça chão, que mantenha intacta a autoimagem de “gente de bem”. A vontade de verdade degenera em vontade de conforto: não quero o que é, quero o que me poupa, o que me absolve, o que me mantém do lado certo da história na narrativa que montei sobre mim.
A teoria da dissonância cognitiva ajuda a entender esse fenômeno: quando um fato contradiz uma crença central, instala-se um mal-estar mental quase físico. Aronson fala desse desconforto como algo tão incômodo que o sujeito faz malabarismos mentais para se livrar dele, ajustando a realidade para que caiba na crença, e não o contrário. É o eleitor que não suporta admitir que errou feio ao idolatrar um líder incompetente; é o cidadão que prefere acusar médicos, jornalistas e juízes de conspiradores do que enfrentar a evidência de que foi cúmplice, por ação ou omissão, de um projeto de destruição.
O bolsonarismo é o zoológico mais didático dessa recusa organizada do real. Quando os grandes veículos de comunicação denunciavam escândalos envolvendo o PT, a “verdade” vinha estampada em letras garrafais, com direito a aplausos para a coragem da imprensa. Bastou o foco se voltar para rachadinhas, milícias, sabotagem da vacinação e estímulo ao golpismo, e a mesma imprensa, sem mudar de CNPJ, virou “lixo”, “canalha”, “inimiga do povo”. Os fatos são tratados como mercadoria de conveniência: se atinge o outro, é prova irrefutável; se encosta no “mito”, vira complô internacional de comunistas, globalistas, veganos e quem mais couber no espantalho da vez.
A pandemia escancarou esse mecanismo com crueldade.[Diante de centenas de milhares de mortos, hospitais lotados e covas abertas, veio a resposta de sempre: exagero, histeria, invenção estatística, armação da OMS, “queda de avião conta como COVID”. Admitir a dimensão da tragédia significaria reconhecer que se apoiou um governo que desprezou a vida, caçoou de mortos e boicotou vacinas; para não passar pelo desconforto dessa autoacusação silenciosa, muitos preferiram chamar a realidade de mentira e a mentira de “versão alternativa”.
Rubens Casara, ao falar da “construção do idiota”, descreve um sujeito produzido por um sistema que precisa de gente incapaz de fazer a ligação entre causa e consequência, realidade e delírio, interesse público e impulso privado. O idiota, aqui, não é apenas alguém de baixa capacidade intelectual, mas o cidadão treinado para viver desconectado da realidade em nome de uma narrativa confortável, manipulável, facilmente acionável por medo e ressentimento. Ele não é “natural”, é fabricado: pela avalanche de desinformação, pela demonização do pensamento crítico, pela redução do debate público a memes e rótulos. Nessa lógica, jornalismo vira “militância”, ciência vira “opinião”, dado vira “narrativa” e decisão judicial vira “perseguição”, desde que contrarie o desejo de quem olha.
A frase silenciosa que orienta tudo é simples: “Se me desagrada, não pode ser verdade”. O fanático de camiseta verde e amarela só aceita laudo, prova, relatório, pesquisa e estatística quando servem para humilhar o inimigo; se o resultado vira contra seu grupo, a realidade é descartada como se fosse um panfleto qualquer rasgado no asfalto.
O mais inquietante é que essa recusa da verdade não se limita a um campo ideológico específico, embora o bolsonarismo a tenha transformado em método de governo e projeto de poder. A pergunta que estrutura o debate público deixa de ser “o que aconteceu?” para se tornar “de quem é a culpa?” e “isso ajuda o meu lado?”. O que Nietzsche, Festinger, Aronson e Casara mostram, cada um a seu modo, é que a verdade exige coragem: coragem de não sair ileso do encontro com o real, coragem de admitir erro, coragem de não se agarrar à primeira mentira que nos poupa da vergonha.
Talvez o grande drama do presente seja este: não é que falte informação, é que sobra gente disposta a viver num condomínio de crenças, com guarita blindada contra qualquer fato que atrapalhe a vista privilegiada do próprio delírio. Do lado de fora, a realidade segue insistindo, teimosa, com seus mortos, suas provas, suas imagens incômodas; do lado de dentro, muita gente continua preferindo a doce mentira que consola à verdade que humilha, sempre pronta a chamar de “perseguição” qualquer coisa que ouse lembrar que, sim, é possível estar profundamente, vergonhosamente errado.


