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sábado, 24 de janeiro de 2026

A verdade que conforta e a mentira que consola

Vivemos uma época em que a verdade, em si, parece ter perdido valor; o que importa é se ela combina com o personagem que cada um inventou para si, com o partido ao qual jurou fidelidade, com o grupo de WhatsApp onde busca pertencimento diário.

Não se pergunta mais “é verdade?”, mas “serve ao meu lado?”. Se não serve, não é apenas descartada: é atacada, humilhada, ridicularizada, carimbada como “narrativa”, “perseguição” ou “armação da mídia”.

Nietzsche já apontava que aquilo que chamamos de verdade é, muitas vezes, um conjunto de metáforas e convenções tão repetidas que esquecemos que são invenções humanas, organizadas para nos poupar do caos do real.

Em vez de amor desinteressado ao que é, busca-se uma verdade que proteja, que ofereça chão, que mantenha intacta a autoimagem de “gente de bem”. A vontade de verdade degenera em vontade de conforto: não quero o que é, quero o que me poupa, o que me absolve, o que me mantém do lado certo da história na narrativa que montei sobre mim.

A teoria da dissonância cognitiva ajuda a entender esse fenômeno: quando um fato contradiz uma crença central, instala-se um mal-estar mental quase físico. Aronson fala desse desconforto como algo tão incômodo que o sujeito faz malabarismos mentais para se livrar dele, ajustando a realidade para que caiba na crença, e não o contrário. É o eleitor que não suporta admitir que errou feio ao idolatrar um líder incompetente; é o cidadão que prefere acusar médicos, jornalistas e juízes de conspiradores do que enfrentar a evidência de que foi cúmplice, por ação ou omissão, de um projeto de destruição.

O bolsonarismo é o zoológico mais didático dessa recusa organizada do real. Quando os grandes veículos de comunicação denunciavam escândalos envolvendo o PT, a “verdade” vinha estampada em letras garrafais, com direito a aplausos para a coragem da imprensa. Bastou o foco se voltar para rachadinhas, milícias, sabotagem da vacinação e estímulo ao golpismo, e a mesma imprensa, sem mudar de CNPJ, virou “lixo”, “canalha”, “inimiga do povo”. Os fatos são tratados como mercadoria de conveniência: se atinge o outro, é prova irrefutável; se encosta no “mito”, vira complô internacional de comunistas, globalistas, veganos e quem mais couber no espantalho da vez.

A pandemia escancarou esse mecanismo com crueldade.[Diante de centenas de milhares de mortos, hospitais lotados e covas abertas, veio a resposta de sempre: exagero, histeria, invenção estatística, armação da OMS, “queda de avião conta como COVID”. Admitir a dimensão da tragédia significaria reconhecer que se apoiou um governo que desprezou a vida, caçoou de mortos e boicotou vacinas; para não passar pelo desconforto dessa autoacusação silenciosa, muitos preferiram chamar a realidade de mentira e a mentira de “versão alternativa”.

Rubens Casara, ao falar da “construção do idiota”, descreve um sujeito produzido por um sistema que precisa de gente incapaz de fazer a ligação entre causa e consequência, realidade e delírio, interesse público e impulso privado. O idiota, aqui, não é apenas alguém de baixa capacidade intelectual, mas o cidadão treinado para viver desconectado da realidade em nome de uma narrativa confortável, manipulável, facilmente acionável por medo e ressentimento. Ele não é “natural”, é fabricado: pela avalanche de desinformação, pela demonização do pensamento crítico, pela redução do debate público a memes e rótulos. Nessa lógica, jornalismo vira “militância”, ciência vira “opinião”, dado vira “narrativa” e decisão judicial vira “perseguição”, desde que contrarie o desejo de quem olha.

A frase silenciosa que orienta tudo é simples: “Se me desagrada, não pode ser verdade”. O fanático de camiseta verde e amarela só aceita laudo, prova, relatório, pesquisa e estatística quando servem para humilhar o inimigo; se o resultado vira contra seu grupo, a realidade é descartada como se fosse um panfleto qualquer rasgado no asfalto.

O mais inquietante é que essa recusa da verdade não se limita a um campo ideológico específico, embora o bolsonarismo a tenha transformado em método de governo e projeto de poder. A pergunta que estrutura o debate público deixa de ser “o que aconteceu?” para se tornar “de quem é a culpa?” e “isso ajuda o meu lado?”. O que Nietzsche, Festinger, Aronson e Casara mostram, cada um a seu modo, é que a verdade exige coragem: coragem de não sair ileso do encontro com o real, coragem de admitir erro, coragem de não se agarrar à primeira mentira que nos poupa da vergonha.

Talvez o grande drama do presente seja este: não é que falte informação, é que sobra gente disposta a viver num condomínio de crenças, com guarita blindada contra qualquer fato que atrapalhe a vista privilegiada do próprio delírio. Do lado de fora, a realidade segue insistindo, teimosa, com seus mortos, suas provas, suas imagens incômodas; do lado de dentro, muita gente continua preferindo a doce mentira que consola à verdade que humilha, sempre pronta a chamar de “perseguição” qualquer coisa que ouse lembrar que, sim, é possível estar profundamente, vergonhosamente errado.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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