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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A captura de Maduro desafia o conceito tradicional de soberania westfaliana e impõe uma nova realidade geopolítica ao Brasil.

A captura de Nicolás Maduro em Caracas, no início de 2026, por forças especiais norte-americanas (Delta Force), autorizada pela administração do presidente Donald Trump, transcende em significado a mera execução de uma ordem judicial internacional. Do ponto de vista das Relações Internacionais e da Ciência Política, o evento configura-se como um ponto de viragem analítico, oferecendo um estudo de caso crítico sobre duas dinâmicas fundamentais do século XXI: a erosão contestada da soberania estatal absoluta frente a aplicações extraterritoriais agressivas do direito, e os complexos e perigosos processos de transição de poder em regimes híbridos — sistemas que mesclam aparências democráticas com práticas autoritárias.

Em primeiro plano, a operação representa a materialização mais extrema da doutrina da jurisdição universal ampliada, onde um estado (EUA) efetua a prisão do líder de outro (Venezuela) em seu próprio território, sem o consentimento explícito de seu governo. Isso coloca em choque direto o princípio westfaliano de soberania e não-intervenção — ainda um pilar retórico da ordem internacional — com conceitos como “responsabilidade de proteger” (R2P) e a luta global contra o narcoterrorismo, usados aqui como justificativa última. A ação redefine os limites da soberania na prática, sugerindo que, para certas potências, ela pode ser condicional perante acusações consideradas de interesse global.

Paralelamente, a súbita remoção da figura central de um regime híbrido como o chavista expõe a vulnerabilidade inerente destes sistemas. O poder, concentrado em um núcleo duro personalista e sustentado por complexas redes de lealdade, corrupção e controle coercitivo, enfrenta um vácuo catastrófico quando seu epicentro é abruptamente extirpado. A transição que se segue não é meramente administrativa, mas uma luta feroz pela reconfiguração das redes patrimoniais e pelo controle do aparato estatal, com altíssimo risco de fragmentação interna, violência entre facções e instabilidade regional prolongada.

Este episódio, portanto, não se esgota no drama de uma captura. Ele inaugura um laboratório forçado para observar a colisão entre normas internacionais, a resistência de regimes autoritários e os imprevisíveis caminhos do colapso e da sucessão política em cenários de intervenção externa direta.

O Fim do Ciclo Chavista e o Colapso do Vácuo de Poder

A operação que capturou Maduro, ancorada no seu indiciamento de 2020 por narcoterrorismo, consumou uma transformação radical na prática das relações internacionais: a elevação de um instrumento legal doméstico de uma potência à categoria de casus belli para uma intervenção extraterritorial. Este ato não apenas rompeu, mas redefiniu à força as normas tradicionais de soberania e não-intervenção, estabelecendo um precedente onde a jurisdição unilateral dos EUA se sobrepôs, por ação direta, ao princípio de inviolabilidade territorial.

Com a extradição sumária para Nova York e sua declaração de inocência na audiência preliminar — cujo desfecho jurídico se aguarda para março de 2026 —, a Venezuela não ingressou em um simples interregno. Ela foi lançada em um estado de “anomia institucional” aguda. A súbita decapitação do núcleo de poder expôs a profunda vulnerabilidade do modelo chavista: um regime construído sobre a lealdade personalista e redes patrimoniais, que se vê desnorteado com a remoção de seu epicentro. O que emerge não é um vácuo de poder, mas sim uma corrida caótica pelo controle das estruturas remanescentes do Estado e das suas fontes de renda. Neste cenário, a ascensão de Delcy Rodríguez à presidência interina é mais do que uma tentativa de continuidade; é a personificação da schizofrenia política do regime em crise. Sua retórica, que oscila entre a condenação feroz da “invasão imperialista” e gestos pragmáticos de abertura ao diálogo com Washington, não é mera hipocrisia, mas um sintoma da dupla pressão inexorável que ela enfrenta: necessidade de legitimidade interna, que exige o cultivo da narrativa de resistência, versus a necessidade de sobrevivência externa, que demanda algum nível de acomodação com a potência intervencionista. Esta dualidade, longe de ser uma estratégia, é um indicador de fragilidade extrema.

Consequentemente, o regime entra em um “modo de sobrevivência” terminal, caracterizado pela intensificação da vigilância e da repressão seletiva. Esta é a resposta de um aparato estatal que, privado de seu líder carismático e do eixo unificador de sua narrativa, recua para seu último reduto: o controle coercitivo puro. O medo da oposição, agora personificado não apenas em María Corina Machado, mas em qualquer foco de mobilização que possa preencher o vácuo, colide com a exaustão profunda de uma base social esgotada pela crise. O Estado, assim, opera em paralisia estratégica, sustentando a ordem pela força no curto prazo, mas sem um projeto político viável para o longo prazo, aprofundando a incerteza que consome o país.

Implicações Sistêmicas e Geopolíticas: A Reconfiguração do Tabuleiro Regional

Sob a lente inflexível do realismo político, a súbita remoção de Maduro não é um evento isolado, mas um terremoto geopolítico que recalibra de forma drástica o equilíbrio de forças no Hemisfério Ocidental. As implicações desdobram-se em três dimensões interligadas, redefinindo alianças, estratégias e vulnerabilidades.

1. Retração Estratégica e Declínio da Influência Extra-Hemisférica
O evento constitui um revés tático de primeira magnitude para China e Rússia. A Venezuela operava como um hub estratégico multifuncional: uma plataforma de projeção política e militar antiamericana, um ativo energético fundamental para Pequim, e um campo de prova para modelos de governança alternativos. A captura, sem uma resposta contundente de seus aliados, expõe os limites da garantia de segurança informal oferecida por Moscou e Pequim. Isto sinaliza a potenciais parceiros em outras regiões (como Nicarágua ou certos estados africanos) que o custo de uma aliança de confronto com Washington pode, em última análise, incluir riscos existenciais para o regime, sem a expectativa de uma intervenção salvadora. O resultado imediato é uma retração calculada e uma perda de influência substantiva, forçando ambos os países a uma reavaliação custosa de seus investimentos e parcerias na região.

2. A Nova Assertividade de Washington: Do Poder de Sanção ao Poder de Ação
A operação transcende uma mera escalada de pressão. Ela anuncia o retorno de uma doutrina de proatividade militar unilateral em questões definidas como de segurança nacional vital. Esta ação sinaliza uma transição de uma estratégia predominantemente baseada em sanções econômicas (poder de constrangimento) para uma que não exclui o uso direto da força (poder coercitivo) como ferramenta primária para neutralizar ameaças. O recado é claro para outros regimes considerados “párias”: o indiciamento judicial americano deixou de ser um instrumento simbólico ou de deslegitimação de longo prazo para se tornar um potencial mandado de captura executável por meios militares. Isto eleva os riscos para elites de regimes similares e redefine completamente o custo-benefício do confronto aberto com os Estados Unidos.

3. O Desafio Regional e o Dilema Brasileiro: Entre a Estabilidade e a Liderança
Para potências regionais, sobretudo o Brasil, o cenário é de complexidade aguda. A instabilidade em Caracas gera pressões diretas e imediatas: risco de fluxos migratórios intensificados, tensão em fronteiras permeáveis, e turbulência no mercado energético regional. No entanto, o dilema é mais profundo que uma “crise operacional”. O fato da mudança de regime ter sido imposta por uma ação militar unilateral dos EUA colide frontalmente com princípios históricos da diplomacia brasileira, como a não-intervenção e a solução pacífica de controvérsias. O Itamaraty vê-se forçado a uma reavaliação urgente: como exercer uma mediação relevante em um cenário pós-fato consumado? Como equilibrar a necessidade pragmática de estabilidade na Venezuela com a rejeição do método que a provocou? A resposta do Brasil definirá não apenas sua relação com o novo cenário venezuelano, mas também sua capacidade de projetar uma liderança autônoma e credível na América Latina em um momento de supremacia americana reafirmada.

Em síntese, as implicações apontam para uma região onde a hierarquia de poder se recompôs de forma abrupta, com os EUA reassertando sua primazia através de meios diretos, as potências extra-hemisféricas recuando para posições defensivas, e os atores regionais como o Brasil lutando para encontrar um novo papel e uma voz efetiva em um jogo cujas regras foram radicalmente alteradas.

Conclusão: O Precipício e a Encruzilhada — Os Desafios de uma Transição Não Negociada

A Venezuela encontra-se diante de um dos cenários mais complexos que uma nação pode enfrentar: uma transição política imposta por um ato de força externa, e não por um acordo interno ou pelo colapso orgânico do regime. Este ponto de partida define um campo minado de paradoxos. A captura de Nicolás Maduro desmantelou o ápice do comando chavista, criando uma abertura histórica, mas não desmontou as intrincadas redes de poder, lealdade, coerção e economia informal que sustentaram o sistema por mais de duas décadas. O estado profundo e os interesses consolidados permanecem, agora operando em um cenário de autoridade central enfraquecida e incerta. Portanto, o futuro imediato do país oscila entre dois polos. De um lado, há uma janela frágil para uma recomposição institucional, possível apenas se os atores internos (frações do chavismo, oposição, sociedade civil e Forças Armadas) conseguirem, sob pressão extrema, encontrar um mínimo denominador para um processo de reconstrução nacional. Do outro, o risco concreto de uma fragmentação acelerada é palpável, na qual essas mesmas estruturas de poder remanescentes podem se voltar umas contra as outras, disputando recursos e território, e potencialmente levando a uma crise humanitária e de segurança ainda mais aguda.

Neste contexto, o papel dos atores internacionais é simultaneamente crucial e perigosamente limitado. A operação militar que precipitou a crise criou uma dívida de legitimidade que apenas um processo político genuíno e inclusivo pode saldar. A comunidade internacional, com os Estados Unidos necessariamente à frente dado seu papel de deus ex machina, enfrenta o desafio monumental de converter um ato de coerção em um facilitador de reconciliação. Isto exigiria um apoio massivo e condicional à reconstrução institucional, garantias para setores chaves do antigo regime que aceitem a transição, e uma resistência à tentação de impor uma solução externa.

O risco final, caso este delicado equilíbrio falhe, é a transformação da Venezuela de um Estado autoritário em um Estado falido — uma entidade sem controle efetivo sobre seu território, mergulhada em violência multifacional e com instabilidade crônica que se irradiaria por toda a bacia do Caribe e América do Sul. A captura de Maduro, portanto, não encerrou um capítulo da história venezuelana; ela inaugurou um outro, cujo enredo será escrito pela interação volátil entre a herança de um regime fraturado, a vontade política de uma sociedade exausta e a capacidade—ou incapacidade—do mundo exterior em agir não como um juiz punitivo, mas como um fiador de uma paz incerta e difícil.

José Ruiz Watzeck
José Ruiz Watzeckhttps://escolassempatria.blogspot.com/
Jornalista, Escritor, Autor, Físico, Geógrafo, Matemático, Historiador, Professor Universitário, Neuropsicopedagogo, Especialista em Docência do Ensino Superior, Pós graduado em Auditoria, Gestão e Licenciamento Ambiental, Pós graduado em Geoprocessamentos e Georreferenciamentos, Pedagogo, especialista em Astronomia e Astrofísica.

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