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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A Bíblia Sob Medida: Cristo à Imagem do Bolsonarismo

Há algo de profundamente perverso quando a fé deixa de ser caminho de conversão e passa a funcionar como espelho polido das próprias convicções. Não se trata mais de ouvir a Palavra, mas de usar-la como acessório de confirmação: escolhe-se versos como quem escolhe filtro de rede social, desligando tudo o que incomoda, suaviza, fere o ego ou exige mudança. O resultado é um Cristo deformado, um Cristo de provador: cada um experimenta, ajusta, aperta aqui, alarga ali, até que o “Jesus” cai perfeitamente em seus preconceitos, desejos de vingança e fantasias de poder. No Brasil recente, esse Cristo customizado encontrou na estética bolsonarista o seu laboratório mais escancarado.

Sob a guarda-chuva do bolsonarismo, a Bíblia virou arma semântica, munição simbólica para justificadamente aquilo que o Evangelho combate desde a primeira página: culto à violência, desprezo pelo diferente, mentira sistemática, vingança travestida de justiça e uma idolatria explícita do poder terreno. Não é à toa que, em nome de uma suposta defesa da “família cristã”, se relativiza a tortura, se zomba de mortos, se banaliza a morte por arma de fogo, como se “homem de bem” viesse sempre com coldre na cintura e munição na língua. A figura do “cristão de bem” tornou-se um biombo ético atrás do qual se escondem projetos profundamente anticristãos, embalados por jargões religiosos repetidos à combustão.

O campo das armas talvez seja a expressão mais obscena dessa apropriação. Prometeu-se um país mais seguro colocando revólver na mão de “cidadãos de bem”, como se o Sermão da Montanha tivesse sido substituído por um curso rápido de tiro. Passagens sobre amor ao inimigo e bem-aventuranças dos mansos foram silenciosamente trocadas por uma espécie de teologia do gatilho: quem tem arma não teme o mal, quem atira primeiro é protegido por Deus, quem mata bandido presta serviço à Pátria. Nessa lógica, o “não matarás” vira nota de rodapé, relativizado pela fantasia de um Jesus que aplaudiria execuções sumárias desde que a vítima tenha o rótulo correto.

No tema da homofobia, a reserva é igualmente brutal. Ao invés de enxergar pessoas concretas, com histórias, afetos e dores, o bolsonarismo preferiu transformar a população LGBTQIA+ em ameaça abstrata à “moral cristã”, como se o maior perigo à fé acontecesse em duas pessoas que se amam e não em um projeto político que normaliza o ódio. Textos bíblicos são arrancados do contexto histórico e teológico e aplicados como carimbo de boletim informativo automático, ignorando qualquer leitura séria que leve em conta a centralidade do amor, da misericórdia e da dignidade humana na tradição cristã. Em nome da “liberdade religiosa”, defende-se o direito de humilhar, excluir, negar direitos, como se discriminar fosse uma espécie de sacramento da ortodoxia.

A mentira, nesse ambiente, ganha status de método espiritual. Fake news passam a ser não um pecado contra a verdade, mas uma “estratégia de guerra” para “defensor do Reino”, como se Deus precisasse de calúnia, montagem de WhatsApp e dublagem tosca de vídeo para se manter soberano. A imaginação religiosa é colonizada pela paranóia: qualquer crítica vira “perseguição aos cristãos”; qualquer divergência, ataque satânico. A fé se descola da realidade e se funda ao complô permanente. Ao fim, o evangelho pregado já não é o de Jesus, mas o da narrativa bolsonarista, onde o diabo muda de nome conforme a conveniência eleitoral do momento.

O uso da violência como linguagem política também se converteu em liturgia. Louvar torturadores, naturalizar discursos de extermínio, fantasiar golpes de Estado, sugerir fuzilamento de adversários, tudo isso passou a conviver com “Deus acima de todos” sem qualquer rubor teológico. A espiritualidade resultante é uma espiritualidade de guerra, na qual o outro nunca é próximo a ser cuidado, mas inimigo a ser derrotado. É a lógica do “nós contra eles” sacralizada, o fascismo ungido com óleo e versículos, a cruz transformada em símbolo de facção. O Cristo crucificado pelos poderes de seu tempo é reeditado como mascote desses mesmos poderes.

Chamar isso de cristianismo é, na melhor das hipóteses, ignorância teológica; na pior, má-fé deliberada. O bolsonarismo fez da fé um marketing político agressivo, um dispositivo de mobilização afetiva que captura medos e ressentimentos para direcioná-los contra alvos específicos: pobres organizados, movimentos sociais, população LGBTQIA+, defensores dos direitos humanos, imprensa crítica, intelectuais, artistas. A Bíblia, nesse cenário, já não é palavra que interpela e transforma, mas legenda de meme, trilha sonora de vídeo de campanha, adereço cênico para quadrinhos inflamados e lives em horário nobre digital.

O mais cruel é que essa origem encontra eco em muita gente honesta, que de fato crê, reza, lê a Bíblia e foi sendo lentamente arrastada para um cristianismo de trincheira, onde a preocupação principal deixa de ser “como amar melhor” e passa a ser “quem devo odiar em nome de Deus hoje”. A dissonância é tamanha que parte dessas pessoas se declara horrorizada diante de qualquer menção à violência, mas relativiza o plano para matar adversários políticos, defender a flexibilização total de armas e responsabilizar a vítima pela agressão que sofre. A consciência moral é anestesiada pela compreensão da identidade política: desde que “seja do meu lado”, tudo é negociável.

No fim, o Cristo do bolsonarismo não é o Cristo do Evangelho. É um avatar ideológico, um boneco moldado à imagem das frustrações, dos medos e das ambições de um movimento que descobriu na fé um instrumento potente de dominação. Enquanto isso, o Cristo que fala de perdão, de partilha de pão, de cuidado com os pequenos e de verdade como libertação segue preocupações demais para quem prefere um Deus que apenas carimba o que já decidiu pensar e fazer. Talvez a pergunta mais honesta, diante dessa Babel teológica, seja simples e devastadora: será que estamos lendo a mesma Bíblia que eles dizem defensor?

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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