Há algo de profundamente perverso quando a fé deixa de ser caminho de conversão e passa a funcionar como espelho polido das próprias convicções. Não se trata mais de ouvir a Palavra, mas de usar-la como acessório de confirmação: escolhe-se versos como quem escolhe filtro de rede social, desligando tudo o que incomoda, suaviza, fere o ego ou exige mudança. O resultado é um Cristo deformado, um Cristo de provador: cada um experimenta, ajusta, aperta aqui, alarga ali, até que o “Jesus” cai perfeitamente em seus preconceitos, desejos de vingança e fantasias de poder. No Brasil recente, esse Cristo customizado encontrou na estética bolsonarista o seu laboratório mais escancarado.
Sob a guarda-chuva do bolsonarismo, a Bíblia virou arma semântica, munição simbólica para justificadamente aquilo que o Evangelho combate desde a primeira página: culto à violência, desprezo pelo diferente, mentira sistemática, vingança travestida de justiça e uma idolatria explícita do poder terreno. Não é à toa que, em nome de uma suposta defesa da “família cristã”, se relativiza a tortura, se zomba de mortos, se banaliza a morte por arma de fogo, como se “homem de bem” viesse sempre com coldre na cintura e munição na língua. A figura do “cristão de bem” tornou-se um biombo ético atrás do qual se escondem projetos profundamente anticristãos, embalados por jargões religiosos repetidos à combustão.
O campo das armas talvez seja a expressão mais obscena dessa apropriação. Prometeu-se um país mais seguro colocando revólver na mão de “cidadãos de bem”, como se o Sermão da Montanha tivesse sido substituído por um curso rápido de tiro. Passagens sobre amor ao inimigo e bem-aventuranças dos mansos foram silenciosamente trocadas por uma espécie de teologia do gatilho: quem tem arma não teme o mal, quem atira primeiro é protegido por Deus, quem mata bandido presta serviço à Pátria. Nessa lógica, o “não matarás” vira nota de rodapé, relativizado pela fantasia de um Jesus que aplaudiria execuções sumárias desde que a vítima tenha o rótulo correto.
No tema da homofobia, a reserva é igualmente brutal. Ao invés de enxergar pessoas concretas, com histórias, afetos e dores, o bolsonarismo preferiu transformar a população LGBTQIA+ em ameaça abstrata à “moral cristã”, como se o maior perigo à fé acontecesse em duas pessoas que se amam e não em um projeto político que normaliza o ódio. Textos bíblicos são arrancados do contexto histórico e teológico e aplicados como carimbo de boletim informativo automático, ignorando qualquer leitura séria que leve em conta a centralidade do amor, da misericórdia e da dignidade humana na tradição cristã. Em nome da “liberdade religiosa”, defende-se o direito de humilhar, excluir, negar direitos, como se discriminar fosse uma espécie de sacramento da ortodoxia.
A mentira, nesse ambiente, ganha status de método espiritual. Fake news passam a ser não um pecado contra a verdade, mas uma “estratégia de guerra” para “defensor do Reino”, como se Deus precisasse de calúnia, montagem de WhatsApp e dublagem tosca de vídeo para se manter soberano. A imaginação religiosa é colonizada pela paranóia: qualquer crítica vira “perseguição aos cristãos”; qualquer divergência, ataque satânico. A fé se descola da realidade e se funda ao complô permanente. Ao fim, o evangelho pregado já não é o de Jesus, mas o da narrativa bolsonarista, onde o diabo muda de nome conforme a conveniência eleitoral do momento.
O uso da violência como linguagem política também se converteu em liturgia. Louvar torturadores, naturalizar discursos de extermínio, fantasiar golpes de Estado, sugerir fuzilamento de adversários, tudo isso passou a conviver com “Deus acima de todos” sem qualquer rubor teológico. A espiritualidade resultante é uma espiritualidade de guerra, na qual o outro nunca é próximo a ser cuidado, mas inimigo a ser derrotado. É a lógica do “nós contra eles” sacralizada, o fascismo ungido com óleo e versículos, a cruz transformada em símbolo de facção. O Cristo crucificado pelos poderes de seu tempo é reeditado como mascote desses mesmos poderes.
Chamar isso de cristianismo é, na melhor das hipóteses, ignorância teológica; na pior, má-fé deliberada. O bolsonarismo fez da fé um marketing político agressivo, um dispositivo de mobilização afetiva que captura medos e ressentimentos para direcioná-los contra alvos específicos: pobres organizados, movimentos sociais, população LGBTQIA+, defensores dos direitos humanos, imprensa crítica, intelectuais, artistas. A Bíblia, nesse cenário, já não é palavra que interpela e transforma, mas legenda de meme, trilha sonora de vídeo de campanha, adereço cênico para quadrinhos inflamados e lives em horário nobre digital.
O mais cruel é que essa origem encontra eco em muita gente honesta, que de fato crê, reza, lê a Bíblia e foi sendo lentamente arrastada para um cristianismo de trincheira, onde a preocupação principal deixa de ser “como amar melhor” e passa a ser “quem devo odiar em nome de Deus hoje”. A dissonância é tamanha que parte dessas pessoas se declara horrorizada diante de qualquer menção à violência, mas relativiza o plano para matar adversários políticos, defender a flexibilização total de armas e responsabilizar a vítima pela agressão que sofre. A consciência moral é anestesiada pela compreensão da identidade política: desde que “seja do meu lado”, tudo é negociável.
No fim, o Cristo do bolsonarismo não é o Cristo do Evangelho. É um avatar ideológico, um boneco moldado à imagem das frustrações, dos medos e das ambições de um movimento que descobriu na fé um instrumento potente de dominação. Enquanto isso, o Cristo que fala de perdão, de partilha de pão, de cuidado com os pequenos e de verdade como libertação segue preocupações demais para quem prefere um Deus que apenas carimba o que já decidiu pensar e fazer. Talvez a pergunta mais honesta, diante dessa Babel teológica, seja simples e devastadora: será que estamos lendo a mesma Bíblia que eles dizem defensor?


