Tô nem aí com esse tal tarifaço

O Analista Político Alaor Gasmo evitou o quanto pode uma entrevista incômoda, mas na quinta-feira, fim de tarde, com frio e garoa, teve de aceitar encontrar-se com Sophia Dapest, jornalista e subeditora adjunta no Diário Semanal, único jornal de Zona da Mata. O analista chegou na hora marcada e avistou Sophia acenando para ele numa mesa de canto, isolada e discreta. Após os cumprimentos de praxe e um beijinho daqueles que as bochechas mal se encostam, ela perguntou:

  • E aí? Amanhã é o Dia D. Na Hora H, o que vai rolar?
  • Poxa! Você sempre vai direto ao ponto? Eu ainda nem me sentei.
  • Desculpa. Vem cá! Por que você escolheu esse local para nossa conversa?
  • É discreto, reservado, silencioso, longe do grande público.
  • Mas aqui é a biblioteca pública municipal?
  • Quer lugar discreto e reservado? O povão não mais frequenta bibliotecas.

Entrando no tema, o analista disse que com o prazo final se aproximando, todos estão apreensivos, mas ninguém arrisca um palpite. A mídia, os políticos, os empresários e o povo têm grande expectativa quanto ao tarifaço, mas é muito difícil acertar a previsão. Qualquer erro grave pode ser fatal para a carreira de um analista. 

  • É difícil prognosticar quando se tem aspirantes a macho alfa envolvidos.
  • Como assim? – perguntou Sophia.
  • De um lado, um déspota imperialista que pensa que manda no mundo e acha que tem o rei na barriga. Só que manda e é o próprio rei. 
  • É verdade. O cara não vale nada, mas tem muito poder.
  • Do outro lado, um bravateiro, inculto e oportunista, tipo “tartaruga em árvore”.
  • Tartaruga não sobre em árvore!
  • É verdade. Não sobe. Logo, alguém colocou ele lá.
  • Essa tal taxação vai mesmo acontecer ou ainda dá para negociar?
  • Sempre dá para negociar, mas para que isso ocorra, as partes têm de ceder.

Assim como a ameaça em curso, na qual ambas as partes defendem território e não querem ceder, Alaor Gasmo e Sophia Dapest também escondem o jogo. A subeditora diz que está sedenta por um furo de reportagem e o analista não quer sua opinião publicada para depois descobrir que errou feio e ter de se justificar. Mas como em toda negociação, o assunto mais importante nem sempre é o que está posto. É normal haver algo nas entrelinhas, que as partes não revelam logo de início e que, no fundo, é o verdadeiro objetivo. 

Eles não se conheciam pessoalmente. Ao ver aquele lindo sorriso, rosto de menina mesmo aos 40+ e corpo bem torneado, Alaor Gasmo se arrependeu por ter adiado tanto o encontro. Encontro profissional, claro. Sophia Dapest, por seu lado, aprecia os livros e os artigos do analista, mas não o imaginava tão atraente. O objetivo formal da conversa era o tarifaço, mas cada um ocultou as impressões sobre o outro para manter o tom profissional da conversa. Só que estava cada vez mais difícil manter o disfarce.

  • Um diz que não vai telefonar sem garantias de que o outro vai conversar apenas o que ele quer. O outro diz que não tem pressa para conversar. Sabe que tem a faca e o queijo na mão. Sabe que está no controle do processo. Dois cabeças duras!
  • É verdade. E enquanto isso, a perspectiva é de prejuízos e demissões.
  • Será que dá para tentar desenvolver outros mercados?
  • Claro que dá, mas não no curto prazo. Estão todos acostumados com a atual situação e ninguém gosta de mudanças.

Na pequena cidade de Zona da Mata existem vários Motéis de luxo com vista para o imponente lago, frequentados por gente das cidades vizinhas. O Prefeito, falso moralista e gastador, precisa aumentar a receita e pretende impor aos Motéis pesada tarifa. Os proprietários temem perda de clientes, falências e a população antevê desemprego. O decreto entra em vigor amanhã, a menos que haja acordo entre o prefeito e o presidente da associação dos Motéis. O problema é que os dois são bicudos e não querem dar o braço a torcer. O povo teme que Zona da Mata vire apenas uma grande zona. Por enquanto, quem está lucrando são as casas de apostas. Vai ou não vai ter tarifaço?

  • Ninguém pensa no bem comum. Só no próprio interesse – disse Sophia Dapest.
  • E eu preciso deixar de ser egoísta e começar a pensar mais em mim – completou Alaor Gasmo.
  • Estou gostando de conversar com você. Esperava alguém introvertido, chato mesmo, mas você é um cara muito legal, forte, sexy.
  • E você foi uma agradável surpresa. Rosto de menina, belo sorriso, corpão.
  • A biblioteca é aconchegante, sossegada, mas para beber, só tem água e café de garrafa térmica. Com esse frio, um vinho cairia bem.
  • Minha casa é perto daqui. Aconchegante, sossegada e tenho vinho Brunello di Montalcino. Topa?
  • Demorou! Vamos nessa. 

Ao caminhar sob a garoa, num único guarda-chuvas e de braços dados com Alaor Gasmo, Sophia Dapest fez outra pergunta:

  • Por falar em tarifaço, e esse bate-boca do Topete amarelo com o Barba rouca? 
  • O que é que tem?
  • Você acha que ele vai mesmo aplicar o tarifaço ou vai dar para trás?
  • Tô nem aí. Que se danem! Vamos logo para minha casa cuidar do que interessa.
Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle). Crônicas de humor toda sexta-feira, às 10h.

7 COMENTÁRIOS

  1. Hoje ouvi as notícias no rádio e quando li a crônica parecia que aí da estava ouvindo comentários sobre o momento econômico do país, mas é só sobre a cidade de Zona da Mata. Ufa!

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