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quarta-feira, 12 de junho de 2024

O fim está próximo. Arrependei-vos!

Após a aposentadoria, o engenheiro Danton dedicou-se a estudar o sobrenatural: ectoplasma (energia espiritual externa), aurímetro (medidor de aura) e PES – Percepção Extra Sensorial. Homem de ciências exatas, ele não crê em nada que não possa ser teorizado, experimentado e comprovado por fatos. Para comprovar suas teorias, começou observar os pregadores e os curandeiros que se instalam na Praça da Sé. Discretamente, pega um pastel e senta-se em alguma mureta para ouvir e gravar vídeos com os mercadores da fé.

Chamou-lhe a atenção um tal Profeta Orós, em trajes de cavaleiro do apocalipse que, com oratória imponente, anuncia o fim dos tempos, prega a conversão, pede contribuições para sua obra espiritual e vende Lotes no Céu, pagos via carnês. Orozimbo Nonato, o Profeta Orós, era peão no Ceará. Semianalfabeto de pai e mãe, tomou um coice de jegue na cabeça, ficou dois meses em coma e quando acordou, partiu para São Paulo e deu-se a profetizar.

O engenheiro calcula a plateia e o montante arrecadado. Notou que quando o povo começa a abandonar a praça, algo acontece para reanimar. Ontem, um homem teve convulsões, gritou com voz macabra coisas que ninguém entendeu e de seus olhos revirados jorraram lágrimas de sangue. Espetáculo assustador. O Profeta pediu que todos se afastassem, jogou um manto sobre o possuído e orou. Ouviu-se um mini estrondo, surgiu uma fumaça colorida, o Profeta retirou o manto e o possuído, assustado, olhar perdido e rosto limpo, levantou-se e correu desnorteado. O povo exclamou: Oh! Todos choraram, aplaudiram, contribuíram e adquiriram lotes.

Desencapetamento concluído, o Profeta foi a uma pastelaria onde um homem magro e baixo tomava caldo de cana. Era o possuído, cara de moleque, mas com idade para fazer exame de próstata. Danton sentou-se por perto, ouvidos atentos. Fuinha é “assistente” do Profeta Orós e, como o engenheiro desconfiou, não há nada de sobrenatural. Puro charlatanismo! O Profeta dividiu a grana, metade para ele e 30% para Fuinha, que achava que a soma dava 100%.

  • Fuinha, você erra muito e nunca assume seus erros.
  • E a culpa é de quem?

Níneve, vendedora de bilhetes de loteria, sacou o esquema e propôs parceria. Eles encenam e ela, vestida de Monja, cuida da arrecadação. Ela sabe encenar. Afinal, mulheres também podem estar possuídas. O Profeta topou e propôs dividir a grana em três: metade para ele, metade para Fuinha e metade para Níneve. Ignorantes em período integral, os dois concordaram com as três metades, mas ficaram com 20% cada e o Profeta com 60%.

  • Ao trabalho. Vocês estão prontos?
  • Nasci pronta – respondeu Níneve.
  • E eu prematuro – disse Fuinha.

Danton passou a aparecer na Praça disfarçado com roupas diferentes, bonés, chapéus e óculos escuros. Com novas encenações de exorcismo, o número de fiéis aumentou e a arrecadação fraudulenta também. O engenheiro documentou tudo para desmascarar e denunciar o trio. Percebeu que os transes revezados entre Fuinha e Níneve variavam constantemente para não ficarem manjados. Porém, certo fim de tarde, algo muito estranho aconteceu. 

Disfarçado de travesti, Fuinha repetiu a performance do sangue no olho, uivou como nunca, estrebuchou e prostrou-se no chão. O Profeta orou, ouviu-se o estrondo, veio a fumaça, mas quando o manto foi retirado, Fuinha ficou imóvel e de bruços. De seu corpo, emergiu um vulto entre nuvens, que assustou o povo. Era um homem elegante, sedutor, sorriso enigmático. Olhos e rosto coloridos de vermelho, cochichou algo e o Orós desmaiou. Danton se impressionou com a melhor performance jamais vista. Níneve correu para amparar Orós, mas ele já estava morto. Infarto fulminante! O estranho chamou Níneve e Fuinha, já recuperado, e disse-lhes.

  • Esse safado usa minha imagem, diz que me expulsa dos corpos, rouba vocês e me humilha. Teve o que mereceu!
  • Quem é o senhor?
  • Ora! Eu sou o que sou, aquele que o falso profeta fingia expulsar.
  • Não imaginei que o senhor também praticasse boas ações.
  • E não pratico. Eu castigo pessoas. O Orós vai passar a eternidade lá embaixo. Agora, me dá a grana de hoje. São meus honorários.

O engenheiro, impressionado, não ouviu a conversa, mas cumprimentou o homem quando passou por ele rumo ao Metrô:

  • Parabéns! Observo a farsa há semanas e esta foi a melhor performance.
  • Eu tinha de aplicar um corretivo naquele falso Profeta.
  • Você não faz parte da equipe?
  • Parte da equipe? Eu? Meu caro, sou aquele que eles fingiam expulsar.
  • De – de – desculpe senhor. Jamais imaginei que o conheceria neste mundo. Pensei que fosse apenas coisa de Hollywood, filmes de terror, encapetados. Ops! Desculpe. Sem ofensas.
  • Tudo bem. Já não faço mais isso no varejo. Dá muito trabalho. Agora só atuo no atacado.
  • Atacado significa agir em bailes Funk, raves, estádios de futebol, terrorismo, arrastões?
  • Muito pior, mais tranquilo e muito mais eficiente. Agora preciso ir.
  • Só por curiosidade, tá indo prá onde?
  • Brasília. Tem votação na Comissão do Orçamento e aprovação de obras. Se eu não acompanho de perto, meus seguidores ficam perdidos e acabam votando coisas positivas para o povo. Não se pode confiar nos políticos. Vendem a alma a qualquer um.
Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário aposentado. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle)

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