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terça-feira, 16 de abril de 2024

O que os olhos não veem, o coração sente?

“Quem o feio ama, bonito lhe parece”. Autor desconhecido. Quando a gente lembra do provérbio ou da frase, mas não sabe quem é o autor, em 60% dos casos acerta quem atribuir a um “sábio chinês” e 20% ao “autor desconhecido”. Mesmo que alguém diga que sabe o nome do autor, dá para responder: mas eu desconhecia!

Cléo nasceu tão feia que a parteira se confundiu: em vez de palmada no bumbum, deu-lhe um tapa na cara. O dito popular não se aplica à sua mãe. Ao ver o mini monstro, seu coração nada sentiu e em vez de amar o rebento, teve um AVC. O pai falhou ao tentar trocá-la no berçário e depois se suicidou. A menina ganhou o nome no orfanato, inspirado na rainha egípcia Cleópatra que era muito feia, mas seduziu os generais romanos Júlio César e Marco Antonio. Cléo tinha um quarto só para ela, para não assustar as outras crianças. Ninguém sabia o que fazer quando ela completasse 18 anos, mas para alívio geral, fugiu aos 16. O orfanato esperou oito meses para reportar a fuga. Vai que a devolvessem!

Quem é desprovido beleza facial, corpo escultural ou inteligência, tenta compensar com talento artístico, esportivo etc. Quem é privado de um dos sentidos, apura os demais. Cléo era fraca de feição, estrábica, nariguda, semi calva e franzina, mas destacou-se em outras áreas: mandona, trapaceira, brava, criativa e super sensual. Sem tato, era mais grossa do que parede de igreja. Autodidata, afinal ninguém queria estudar com ela, aprendeu informática, finanças e literatura erótica. Publicou o e-book “Sobre o olho que nada vê” e ganhou algum dinheiro.

Tentou conhecer homens, mas sem sucesso. Certa dia, invadiu nua o vestiário masculino, na hora do banho. Não ouviu qualquer assobio, não recebeu uma única cantada e os atletas saíram correndo, pelados e ensaboados. Tentou visitas íntimas no presídio, mas o detento contemplado passou mal e pediu transferência para a solitária.

Lançou-se como garota de programa, mas não conseguia clientes. Tal qual a rainha que inspirou seu nome, Cléo era sedutora, com voz marcante. Na informática seria hardware ruim, mas software fantástico. Graças à voz sensual, empregou-se num Call Center, em home work, mas foi demitida após um chat com imagem. Alegaram corte de verba. Mais contrariada do que gato no cabresto, tornou-se cuidadora de idosos. Gastão, seu cliente, era um viúvo rico que, por causa do diabetes, seus olhos nada viam. Cléo cuidou muito bem dele, inclusive com os favores sexuais que os homens com visão perfeita recusavam. Cuidou tão bem que, em sete meses, o idoso infartou e entrou em coma. Os enteados gananciosos internaram o padrasto numa clínica barata, de quinta categoria. Tentaram retomar o imóvel e o controle da conta bancária, mas quando Cléo abriu a porta, foram embora correndo.

A cuidadora ficou com a casa e com a grana do idoso, mas não dormia bem. A doutora, em tele consulta com câmera desligada, diagnosticou insônia crônica. Uma psicóloga concluiu que o sono sempre lhe fugia, talvez por conhecê-la. Então ela criou um site com fotos falsas ou retocadas e começou a aplicar o Golpe do Amor, só que em vez de roubar os incautos, cobrava fortunas para que não postasse imagens do encontro. Isso lhes mancharia a reputação.

O plano deu certo, mas precisava ganhar escala. Cléo recrutou moças lindas e capangas para o golpe da Acompanhante de Aluguel. As moças atraíam clientes e os capangas faziam o serviço sujo. Enricou, mas chamou a atenção da Polícia. Dois investigadores montaram campana e tiraram fotos em alta resolução, mas a perícia concluiu que a câmera estava com defeito, até serem informados que ela é feia mesmo. O jeito foi escolher as fotos menos aterrorizantes para os cartazes de “Procura-se” postados no site da Polícia e enviados para a mídia.

Com a grana dos golpes, mais o que pegou do Gastão, fez três plásticas, lipoescultura, aplicou botox, silicone, colocou cílios e mega hair. A nova Cléo, repaginada, linda e charmosa, estava cansada das mudanças constantes para fugir da polícia e transferiu o site de acompanhantes para as colaboradoras, mediante comissão. Vaidosa, mudou o nome: Gretchen. Alugou uma casa numa Vila requintada e bolou um esquema de pirâmide de Bitcoins. A vida finalmente lhe sorriu e não mais se assustava ao se olhar no espelho. Passou a frequentar restaurantes finos, shoppings e salões de beleza. Afinal, ninguém a conhecia.

Trabalhando sozinha e poucas horas por dia, ficou milionária. Graças à voz melodiosa e aos chats, agora com sua nova e linda estampa, os homens caíam em sua lábia e aplicavam fortunas na pirâmide. A Polícia não tinha pistas da Dama do Bitcoin, como ficou conhecida, pois sempre mudava de provedor, todos hospedados no exterior.

Tudo corria bem até que Gastão, seu antigo cliente rico, saiu do coma, controlou o diabetes e recuperou a visão. Ele tentou localizar a cuidadora, cuja voz o cativara, mas às escondidas, pois os enteados gananciosos ainda a temiam. Ouviu falar das aplicações em Bitcoins, acessou o site e foi atendido através do chat. 

Enquanto esteve cego por causa do diabetes, Gastão aprimorou a audição. Assim que ouviu a voz de Gretchen, lembrou-se de Cléo. Só pode ser ela, pensou. Identificou-se, sugeriu um encontro e comprou roupas finas para impressioná-la. Os enteados gananciosos descobriram e avisaram a Polícia, mas na portaria da Vila requintada, a resposta foi lacônica:

  • Ela partiu desta para a melhor.
  • Morreu?
  • Não. Mudou para uma casa bem melhor, mas não sabemos onde fica.

Após três meses, os enteados gananciosos receberam carta de um advogado informando que o senhor Gastão o instruiu a deserda-los. A vaidosa Gretchen contatou o Delegado através de um link seguro e não rastreável.

  • Tenho um pedido a fazer.
  • Você quer negociar os termos da rendição?
  • Não. Quero apenas que troque minha foto no cartaz “Procura-se”. Mandei 3 poses para você escolher. A antiga não me faz justiça. Ninguém merece!

A polícia acredita que o casal viva numa ilha no Caribe, sem acordo de extradição. Gastão apaixonou-se pela voz da cuidadora e pelas suas carícias. Seus olhos nada viam, mas seu coração sentia amor por ela, cujo olho que nada vê lhe trouxe fortuna. Ela também se apaixonou por Gastão, apesar da idade. Ele tem 72 e ela 30. A diferença? 60. Não 60 anos, mas 60 milhões de reais. O amor é lindo! Vida que segue.

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário aposentado. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle)

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