O jubileu de prata da turma e a cápsula do tempo

Um carro preto blindado deixou Anquesenamon no portão da escola, ou do que sobrou dela, na hora e no dia agendados 25 anos atrás. Aluna mais zoada da classe, ela nunca perdoou o pai pelo seu nome. Amenófis era filho de um egiptólogo e foi diretor do museu de antiguidades. O pai e seu irmão mais velho, Tutancâmon, tinham nomes de faraós egípcios que reinaram lá por mil trezentos e bolinha A. C. ou A. M. (antes do mundo). Anquesenamon também era filha de Amenófis com a rainha Nefertiti. A classe toda caiu na gargalhada quando o professor de história abordou o tema Egito Antigo e citou a dinastia da aluna.

O nome esquisito não era o único motivo da zoação com Quequé, como sua mãe a chamava. As colegas a apelidaram “boquinha de tatu”, ou apenas “bô”, por causa dos lábios finos e bicudos. Os rapazes a chamavam de Carrie, em alusão a Carrie, a estranha, do livro de Stephen King. Quequé dizia a si mesma: “um dia dou um jeito nessa turma”.

Em dezembro de 1998, a professora de português e o professor de história, seu namorado, pediram aos alunos do último ano do ensino médio para escreverem uma carta endereçada a eles mesmos. O conteúdo deveria incluir sonhos, projetos e o que acham que serão e onde estarão em 25 anos.

As cartas foram envelopadas, lacradas e enterradas num canteiro nos fundos colégio junto à árvore plantada pelos alunos. Todos se comprometeram a comparecer à solenidade do Jubileu de Prata da turma em 2023, naquele mesmo dia, às 11 horas, quando a cápsula do tempo será aberta e cada um lerá sua carta. Talvez até role um churrasco. A escola, abandonada e invadida, desmoronou e o governo não tem verba para reconstruir, mas a árvore e a cápsula estão lá. 

Vendo que ninguém chegava, Quequé decidiu abrir a caixa. Prazo é prazo! Pegou uma picareta enferrujada que alguém descartou, arrombou a caixa, pegou as cartas, o convite da formatura e, mesmo sem alguém para ouvir, começou a ler em voz alta e recordar alguns fatos. 

Graça, ou melhor, Desgraça. Essa me zoou muito. Saia com qualquer um e acabou na vida. Morreu com um tiro 9 mm na porta do Cabaré. Cauê, mauricinho safado! Me chamou para um baile, esperei uma hora e quando cheguei lá, sozinha, ele estava agarrado à Sofia. Três anos depois se casaram. A caminho da lua de mel, o carro deles pegou fogo, matando o casal.

O Arlindo era meio lesado, mas não me zoava. Sua carta dizia que seria como o pai, “cenador”. Nossa! Ele escreveu senador com “c”! Queria ser famoso, morar em casa isolada, cheio de gente servindo e cuidando de sua segurança. Quase chegou lá. Virou Secretário de Educação, mesmo escrevendo educação com dois “S”, desviou verba da merenda e meteu-se em uns escândalos políticos. Está preso. Pensando bem, chegou lá. Tem muita gente o servindo e cuidando de sua segurança. Eu até que gostava dele.

Bento, apelido: Chico Bento, personagem da Turma da Mônica. Era caipira, mas bonzinho e me respeitava, ou me temia. Os pais eram ricos. Sua carta dizia que em 2023 queria estar casado com uma mulher bonita e poderosa. Também chegou lá!

Aninha, Patty e Margô eram o trio que mais zoava comigo. Não entraram na faculdade, nem arrumaram bons empregos. Num festa da turma, na qual fiquei falando sozinha, não deram sorte. Puseram comprimidos nas bebidas e os corpos foram encontrados num matagal. Segundo o legista, não houve violência sexual. Apenas overdose e furos calibre 9 mm. Triste fim!

Quequé encontrou as cartas dos professores namorados, de português e de história, que toleravam a zoação que lhe faziam. Eles iam se casar, mas no noivado, ninguém sabe como, suas taças de champanhe continham arsênico. Morreram na hora.

Passava do meio dia, o sol estava forte nas ruínas da escola. Ninguém apareceu, mas Quequé estava feliz consigo mesma. Apesar das lembranças da zoação, ao ler sua carta, sentiu-se realizada. Dizia: em 25 anos, serei dona do meu nariz, poderosa e temida. Marido bonzinho, rico e respeitador. Meus filhos não nomes de faraós. Talvez bíblicos. Isso mesmo, nomes tirados da bíblia, onde só tem coisas boas.

Quequé, chefe do tráfico, viu um carro estacionando, um sedã preto e blindado. Ao volante, o marido Bento, o riquinho da classe que a respeitava ou temia. No banco traseiro, os filhos Barrabás e Salomé, nomes bíblicos. Bento lembrou dos tempos do colégio e quis brincar com a esposa: Vamos embora, boquinh… Parou quando ela abriu a bolsa e acariciou a coronha da pistola Glock 9 mm e falou: um dia dou um jeito nesse cara! Bento pigarreou e disse sorrindo: Vamos almoçar, meu amorzinho. Vida que segue! 

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle). Crônicas de humor toda sexta-feira, às 10h.

4 COMENTÁRIOS

  1. Após a leitura saiu um “uau” sem querer…..
    Gostei muito de rever esses nomes tão históricos. As cenas ficaram facilmente visíveis como se eu estivesse assistindo a um filme. Principalmente a cena final quando ela leva sua mão pra dentro da bolsa e acaricia a coronha da pistola. Talento na veia!!!

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