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quinta-feira, 11 de abril de 2024

O impacto histórico da mulher no mercado de trabalho

O processo de exclusão sofrido pelas mulheres ao longo da história foi colocado em evidência acadêmica pelo surgimento de formas de organização social surgidas nas décadas de 1960 e 1970. A avalanche de movimentos sociais faria com que velhos paradigmas fossem repensados, influenciando os processos de produção de conhecimento. As profundas diferenças entre homens e mulheres são a razão da existência da teoria feminista, em suas discussões, o tema central é a submissão das mulheres e a dominação masculina que é explicitamente inerente ao patriarcado. 

O movimento feminista do século XIX, buscava a igualdade de direitos civis, políticos e educacionais. Os primeiros grupos organizados surgiram na Europa e depois nos Estados Unidos. O pensamento feminista vem da corrente filosófica do existencialismo e tem os grandes nomes da época Simone de Beauvoir, Mary Wollstonecraft e Gertrude Stein. O desejo das mulheres que representaram a gênese do pensamento feminista foi um: o reconhecimento de que as mulheres eram, de fato, seres racionais e que podiam ser muito mais do que cuidadoras e empregadas domésticas. 

O pensamento feminista evoluiu por meio de diversas reformulações e se desdobrou em aspectos que ficaram conhecidos como “ondas”. A Primeira Onda do Feminismo é caracterizada pela luta pelo direito ao voto e ao trabalho, na Segunda Onda do Feminismo começam os estudos sobre a condição da mulher, e os mais recentes, a Terceira A Wave do Feminismo data da década de 1990 até a atualidade e se caracterizou pelo empoderamento feminino. 

No Brasil, a primeira onda do feminismo foi liderada por Bertha Lutz, importante cientista que estudou no exterior e trouxe em 1910 o ideal libertário feminista. Lutz lutou pelo direito ao voto e foi uma das fundadoras da Federação Brasileira do Progresso Feminino, desde então o movimento feminista brasileiro vem crescendo e aumentando a efervescência pela conquista dos direitos das mulheres. 

Embora o caminho percorrido na busca pela igualdade seja mais longo para as mulheres, autores como Simone de Beauvoir acreditavam que tal segregação não era algo inato à espécie humana. No livro O Segundo Sexo – Experiência de Vida, Beauvoir argumenta que até os quatro anos de idade meninos e meninas praticamente não têm diferença no modo de ser, essa diferença seria imposta pelo regime em que as famílias estão inseridas. 

O “regime” seria o patriarcado, no qual os homens, desde cedo, estariam preparados para assumir o papel de liderança, que para eles seria inato ao sexo masculino. Esse fardo de responsabilidade exigiria que o menino fosse removido dos golpes maternos antes da menina, por exemplo. Mas, por outro lado, seria recompensado com outros privilégios, que estariam presentes ao longo de sua vida. 

Ao analisar o poder da supremacia masculina em todos os aspectos da vida pública e privada das famílias, Beauvoir demonstra que a desigualdade de gênero é um problema intrínseco na formação das sociedades. Assim, a desigualdade de gênero tem se perpetuado e afirmado como correta por meio de diversos pilares de influência, como a família, a religião e o pensamento comum da sociedade. 

A maioria das mulheres desconhece o seu estado de inferioridade, vive “bem” e acredita que está a cumprir as suas funções, pelo que o debate sobre o assunto – numa perspectiva não masculina – é necessário e permite a politização das mulheres incentivando-as a romper com as barreiras socialmente impostas ao gênero. A partir da politização das mulheres, é possível redefinir as relações entre o público e o privado. Para Biroli, as teorias feministas apresentam um novo olhar sobre a divisão sexual do trabalho, a violência doméstica, a diferenciação do controle estatal sobre os corpos e a noção de liberdade e subordinação aplicada às mulheres.

Sobre a mudança que a politização das mulheres causaria, Beauvoir comenta que: “A mulher de hoje está prestes a destruir o mito do eterno feminino: a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço da coquete, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Eles começam a afirmar sua independência do homem; não sem dificuldades e angústias porque educadas por mulheres em gênese socialmente aceito, seu destino normal seria um casamento que as tornasse objeto da supremacia masculina.”  

Beauvoir, em suas percepções, busca desmistificar a feminilidade, elevando às mulheres a condição de um ser humano individual que não precisa necessariamente do homem para se reconhecer como ser. Outros grandes autores europeus têm debatido as questões da desigualdade de gênero na sociedade, porém, quando as mulheres europeias falam sobre a dominação do patriarcado esse discurso difere da realidade de outras sociedades, especialmente quando se fala em países subdesenvolvidos, onde além da desigualdade de gênero as desigualdades sociais são evidentes. 

Seguindo a historiografia das mulheres latino-americanas, outras formas de dominação desconhecidas das europeias são percebidas até então. O feminismo branco muitas vezes assumiu uma postura autoritária ao excluir reflexões mais contextualizadas de mulheres em um continente como a América Latina, que são em grande parte negras, indígenas, pobres e lésbicas de várias religiões. Além disso, uma característica do feminismo branco e hegemônico é sua negação histórica do diálogo com mulheres negras, indígenas, lésbicas, bem como com os homens, ecoando assim o suposto binarismo natural e biológico nas relações sociais e históricas de poder de raça, classe, gênero e sexualidade.  

As relações históricas de poder demonstram uma luta constante entre oprimidos e opressores, no processo de colonização das nações, é possível classificar esses dois agentes como o colonizador e o colonizado. Na visão do colono, o colonizado é um ser “selvagem” que precisa ser apresentado às atividades modernas da sociedade de onde vem o colonizador. Essa radicalização não permite ver o colonizado como ser humano, mas apenas como um animal, sem alma e sem gênero. Esse processo de “objetificação” humana justificou uma série de atrocidades cometidas contra os povos nativos. 

A imposição dessas categorias dicotômicas se entrelaçou com a historicidade das relações, inclusive das relações íntimas. Quando se trata de “relações íntimas”, Lugones não se refere apenas ao ato sexual, mas também às relações públicas e privadas do cotidiano de uma organização social.  

A opressão racializada de gênero sofrida pelas mulheres na América Latina foi denominada por Lugones como “colonialidade de gênero”, a possibilidade de superação seria o Feminismo Decolonial, que iria além do feminismo eurocêntrico. De acordo com Kempf e Wedig, o feminismo é uma forma de resistência à opressão sexista colonial, mas o feminismo “branco” oferece certas limitações: Diante da colonialidade do poder, principalmente no que se refere ao gênero, uma série de formas de resistência e lutas ocorreu por aqueles que foram submetidos aos processos de opressão. 

O feminismo pode ser considerado uma dessas lutas, mas apresenta aspectos limitantes na consideração das orientações das mulheres não brancas, não ocidentais, não burguesas. O feminismo atual mostra-se, em grande medida, como um descendente da luta pelas demandas das mulheres brancas, europeias e burguesas, em relação às desigualdades em relação aos homens. Assim, a luta pela emancipação das mulheres europeias é a base do feminismo eurocêntrico exportado para a colônia e ainda em voga hoje.  

Nesse sentido, Lugones critica o movimento feminista, pois a referência hegemônica era a “libertação feminina”, em que “as mulheres brancas se preocuparam em teorizar o significado branco de ser mulher como se todas as mulheres fossem brancas”, então não há uma preocupação mais profunda com outras mulheres: negras, indígenas, lésbicas ou camponesas, por exemplo. 

Por isso, a visão descolonial visa compreender a hierarquia de gênero e toda a sua subjetividade, para fornecer a todas as mulheres materiais que lhes permitam compreender sua situação sem se render a ela. Segundo Lugones, ao contrário da colonização, a colonialidade de gênero permanece na constituição do sistema de poder capitalista mundial hoje, sua estrutura de poder baseada no modo de vida europeu – essencialmente patriarcal – constitui uma poderosa ferramenta de opressão intrínseca à estrutura social moderna. 

Considerando o contexto histórico das mulheres na sociedade, fica claro que dentro das ciências econômicas a segregação de gênero também não é diferente. Na tentativa de equalizar a produção acadêmica e fomentar o debate sobre a participação das mulheres na economia, surge uma nova área de pesquisa, baseada na crítica feminista à economia capitalista consolidada, configurando-se como Economia Feminista. 

Alguns autores afirmam que a economia feminista surgiu a partir do século XX, e ganhou força no final dos anos 1990, porém, autores como Carrasco afirmam que a discussão da questão da desigualdade entre os sexos, a diferenciação das atividades desenvolvidas, e a sua condição económica e social remonta à época do surgimento da economia como disciplina autónoma, visto que a principal análise da economia feminista é o trabalho realizado pelas mulheres e o seu reconhecimento na sociedade. 

O debate da economia feminista abrange todas as esferas de atividade das mulheres – pública e privada -, algo que a economia tradicional não considerava até então. O trabalho doméstico e as atividades de cuidado com os outros não pertencem à esfera econômica, pois não se destinam às transações de troca no mercado, tornando-se invisíveis. 

Todos os tipos de atividades transformadoras tradicionalmente realizadas por mulheres, ou seja, todos os bens e serviços que são produzidos, utilizados e consumidos no espaço familiar, e para os quais não é cobrada contribuição financeira, justamente por isso ficam fora do foco de interesse da economia tradicional. Nesse sentido, a perspectiva da economia feminista direciona uma crítica que propõe um olhar estranho sobre a tradição econômica desde o estabelecimento da economia como disciplina científica autônoma no século XVIII.  

A divisão sexual do trabalho é algo inerente à evolução humana, esta dicotomia entre as atividades consideradas femininas e masculinas é uma marca da civilização. Porém, a carga horária disponibilizada às mulheres torna-se maior quando elas também passam a participar da esfera pública, exercendo atividades remuneradas. O impacto na produção do trabalho doméstico imposto socialmente atinge diretamente as mulheres e não os homens, principalmente quando há necessidade de cuidar do outro. Cabe à economia feminista inferir os impactos que essas obrigações e o tempo despendido em atividades tradicionalmente vistas como “femininas” geram no mercado de trabalho e no desenvolvimento pessoal das mulheres. 

A Economia Feminista visa mensurar as horas de trabalho despendidas na chamada “dupla jornada” realizada pelas mulheres, de forma a incluir a importância do trabalho doméstico no cálculo das variáveis econômicas. O trabalho realizado em escala privada e de caráter reprodutivo é um agente que viabiliza o trabalho desenvolvido na esfera pública, de caráter produtivo. A busca pelo reconhecimento da importância dessas atividades e da universalização das tarefas é um dos objetivos da corrente teórica, a perspectiva feminista do trabalho reprodutivo demonstra sua relevância no desenvolvimento da economia da sociedade. 

Autor:

Adriano da Silva Santos é um jornalista e escritor, formado na Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Reconhecido pelos prêmios de Excelência em webjornalismo e jornalismo impresso, é comentarista do podcast “Abaixa a Bola” e colunista de editorias de criptomoedas, economia, investimentos, sustentabilidade e tecnologia voltada à medicina. 

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