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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

O ENTENDIMENTO TEXTUAL

Durante muito tempo, e até mesmo nos momentos atuais, o estudo, ou análise de textos, é orientado privilegiando fragmentos, descobertas e conhecimentos morfossintáticos das palavras, partes constitutivas, períodos, e tantas outras particularidades gramaticais e ortográficas, relegando a um segundo plano o real entendimento dos objetivos do autor ao dedicar seus conhecimentos para expressá-los de forma escrita.

Não existe erro ao considerar importante o conhecimento gramatical padrão, porém, o primeiro interesse, em uma análise textual, deveria sempre estar direcionado para a compressão de seus aspectos globais, ou seja, seu real entendimento que lhe conferem sentido e importância ao esforço autoral, seja em qualquer gênero apresentado.

Identificar o campo social-discursivo em que um texto está inserido, levando em conta sua original destinação a ser reconhecida, é um dos fatores universais tão bem propostos pela digníssima professora Irandé Antunes. Considerar, por padrão, que um texto é bom, por “estar correto”, é desprezar sua finalidade, vilipendiar o autor e subestimar a inteligência dos alunos.

É inevitável levantar a questão: O que deve vir primeiro, analisar ortografia e gramática, ou priorizar o entendimento do texto? Observe que o questionamento não é “o que é mais importante”, mas sim “o que deve vir primeiro”.

Um texto, para ser bom, deve ser compreendido! Erros ortográficos e gramaticais podem ter um peso muito influente em correções de avaliações concursais, porém, um texto capaz de transmitir uma ideia, informação, ponto de vista coerente, sem mergulhar o leitor em dúvidas sobre seus objetivos, é um texto “bom”, mesmo que contenha alguns erros ortográficos e gramaticais.

Uma análise textual deve primar por identificar a ideia central proposta, e verificar se ela permanece presente em todo corpo do texto. Do título à conclusão, deve ser claro quanto ao conteúdo e manter a ideia central identificada no princípio.

Outro ponto universal a ser analisado, antes de partirmos para as ditas “análises padronizadas”, que inicialmente ignoram o conteúdo social e ideológico, é reconhecer o contexto! Identificar a pertinência, o momento sociopolítico vivido pelo autor, sua localização geográfica, e até o marco temporal/histórico em que foi redigido.

A coesão e a progressão do tema irão determinar, em grande parte, a qualidade do texto que apresenta conteúdo, independentemente do gênero inicial em que possa estar inserido. Falo inicial, porque, claramente, é difícil determinar um gênero único para um bom texto. Coesão e progressão geram expectativa, desejo de continuar a leitura, de encontrar uma conclusão bem construída, para ser comparada às conclusões que já vamos construindo durante a leitura.

Face ao exposto, fica claro que nenhum texto é redigido do nada, sem finalidade. Todo texto possui um propósito, e, seja qual for este propósito (inesgotáveis para tentar listar em um artigo), querer descobri-lo deve ser o sentimento que desperta.

Considerando que falei em gêneros, esbarrei em outro ponto relevante a ser considerado: Qual o gênero do texto? – (de qualquer texto a ser estudado). Atualmente, com o grande “El Dourado” das comunicações que experimentamos, classificar gêneros tornou-se uma tarefa ingrata, pois definir um gênero “mensagem de aplicativo de telefone” parece muito mais uma abstração do que uma real classificação. E mesmo em tempos idos, se formos bem honestos, podemos verificar que uma fábula (dando um exemplo de gênero bem definido) pode possuir diversos outros gêneros expressos em seu contexto. Logo, independentemente da classificação de gênero que encontremos, ou criemos, para definir um texto, devemos considerar mais um fator universal: Deve ser informativo, fugir das coisas óbvias e trazer compreensão. Este é mais um ponto para considerar um “bom texto”.

A insistência empedernida, de muitos professores, em mergulhar suas correções diretamente e primeiramente nos pontos gramaticais, desvaneceu a importância informativa na verificação da qualidade do texto. Antes das análises de possíveis “erros”, é justo perceber e avaliar os elementos cognitivos e sociais presentes.

Não poderia encerrar este estudo sem falar da intertextualidade. Considerando que todos os textos já foram escritos, a possibilidade de reordená-los é infinita. Tomando por verdade, e possivelmente seja, esta premissa, a intertextualidade sempre estará presente de maneira intrínseca em cada evento de linguagem. Não importa se é proposital, acabamos sempre nos valendo das palavras dos outros para marcar nossos próprios posicionamentos, ou ainda corroborar, ampliar, complementar ou até refutar.

O entendimento textual, como prefiro nominar, embora a brilhante professora Irandé Antunes se refira como análise textual, precisa reciclar prioridades. Analisar um texto é primeiramente ENTENDÊ-LO, depois contextualizá-lo e compreendê-lo.

Saulo Semann

Acadêmico de Letras – UNICENTRO

REF.: Texto Fundamentos para a análise de textos – o foco em aspectos globais, de Irandé Antunes.

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