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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A desesperança desoladora, talvez o maior anestésico político que já afetou-nos

O modo com que a política nacional se desenrola é assunto básico em todo e qualquer debate atinente às questões demasiadamente aventadas pela mídia, pelos influenciadores e pelos agentes políticos como um todo. Muitas vezes, porém, as discussões soam como meros arranjos de verbetes, a linguagem e as questões em si debatidas distanciam-se dos cidadãos e apropinquam-se da elite intelectual, criando, pois, um abismo entre os sustentáculos da democracia e aqueles que influenciarão a ponta da ceta política.

Sob esse lume, se faz mister engalfinhar todos os esforços psíquicos para que o êxito analítico seja único corolário a emergir. No que tange à tripartição do poder do Estado, é improfícuo jubilar-se única e exclusivamente pela concepção basilar dos pesos e contrapesos. É indubitável que a dinâmica dos Três Poderes pode prorromper sobre os néscios como uma tempestade de informações caóticas e, como deslinde conceitual de tal caos idealístico, desorganizadas. Todavia, é exacerbação tola a visão de que o dinamismo do poder é perene mistério, sobre o qual a luz da compreensão cidadã jamais cairá; é possível, sem brumas de tergiversações, compreender o funcionamento das máquinas institucionais, pois estas são cognoscíveis à massa ambulante.

Desde os bucólicos, passando pelos periféricos cidadãos das metrópoles demograficamente densas, até os doidivanas que, sob a égide do jogo político tradicional, esbanjam os recursos do erário ao se locupletarem na sujeira da velha política brasileira; todos podem ascender intelectualmente à guisa de catarse pública, da qual todos, como legítimos agentes políticos, participarão do jogo como peças autônomas, não como marionetes de gurus desajuizados ou bezerros de ouro cuja macicez dá-se unicamente pela completude fecal.

No ano de 2018, Jair Messias Bolsonaro foi eleito democraticamente ao cargo máximo do Poder Executivo. Bradaram a moralidade, a justiça, o conservadorismo e o grito ecoou pelo Brasil onde encontrou guarida, além de reciprocidade.

Sobre a convalescente república deixada por Michel Temer, o novo ocupante do Planalto possuía, à perspectiva de parte da população, a moralidade e integridade necessária à correção dos erros da velha política; renovação, mudança, reconstrução, todos substantivos que fortemente descreviam as aspirações do povo que livremente manifestou-se nas urnas.

Entretanto, a desilusão coletiva viria a galope, e a tal fundamentação nos valores seria posta à prova. Bolsonaro traiu a todos, ao menos àqueles que acreditaram que sua política seria disruptiva. Ele, o Presidente da República, grulhava reiteradamente sobre a defesa do liberalismo econômico, propugnava o fim do “toma lá, da cá”, encolerizava-se contra os criminosos, e jargões como “me chama de corrupto!” expressavam a equalização que este fazia entre a criminalidade e a corrupção.

Todas as pautas supramencionadas (e muitas outras) foram pisoteadas por uma política aquém das suas promessas e o povo fragmentou-se ainda mais: uns optaram pela clássica e hipócrita idolatria cega, outros saltaram do barco que agora navegava a portos antigos, e outros ainda usaram do fracasso da esperança para alimentar as trevas. A velha política não acabou, não intimidou-se, ganhou força, robustez e agarrou-se ao Estado como um parasita revigorado, que paulatinamente blindou os velhos saqueadores do erário, e infligiu à massa que os elegeu, a triste impotência da impunidade. O ópio, no Brasil, não é a religião, talvez seja a desesperança, a angústia, a verdade de que tudo o que o Mito aparentava dotar-se, nunca existiu.

Autor:

Daniel dos Santos de Moraes

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