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sábado, 22 de janeiro de 2022

As três mulheres estranhas

Muito antes do Jesus Cristão caminhar sobre a terra e das leis dos homens judeus separarem céu da terra; antes que os muros de Tróia fossem combustos e dos edifícios do Povo de Kem beijarem as nuvens num toque impudente; antes de tudo, haviam aqueles, os espíritos dos deuses antigos. Eles criaram o sol, a lua e os mundos e amaram tanto a sua criação que decidiram habitar com ela na terra.

E os homens, naquele tempo, viviam ao lado dos Deuses como seus iguais. Porém, quando o homens estranhos vindos do oriente trouxeram para aquela terra distante os nomes de Moisés, Isaque, Abraão e Jacó Paulo, Javé e Jesus os filhos daquela gente olvidaram os deuses de seus pais e abraçaram carinhosos os ídolos de seus vizinhos.

Todos se haviam esquecido dos nomes sagrados de Hécate, Freya, Wotan e Brígida. Todos, salvo três mulheres de madeixas negras como a noite que viviam em uma aldeia tão antiga quanto os bosques dos Germanos, e das florestas escuras dos Romenos, e dos Prados congelantes da gente eslava.

Os nomes das três irmãs foram esquecidos nas areias do tempo. Porém não foram esquecidas as habilidades que tinham as mulheres de prever o movimento dos astros, o porvir das colheitas e o florir da primavera; e não olvidaram que seu falar causava encanto em ouvia. Nenhum homem do campo poderia também deixar de repetir com certo assombro as palavras que a senhora situavam nas noites quando o luar derramava uma luz bruxuleante sobre as velhas árvores do povoado.

“Héstia, Wotan

Freya, Odin

Inanna, Árthemis

Diana, Fricka!”

E o padre do povoado não podia deixar de olhar torto para elas quando, por acaso, seus olhos sagazes incidiam sobre elas nas ruas do vilarejo.

Na verdade ninguém ali sabia de onde eram aquelas três mulheres solitárias. Apenas sabiam que elas estavam lá há muito mais tempo do que eles. Por isso, os homens daquele lugar temiam aquelas mulheres e não tardou que corresse um boato de que as três irmãos da casa longínqua haviam feito um pacto com Satã e vendido sua alma numa noite de lua cheia.

Não obstante, as mulheres seguiam sua vida naquele povoado longínquo sem que a ninguém fizessem mal.

Aconteceu, porém, que, num dia de Samhein, as mulheres foram ter com chefe da vila e avisaram-lhe de que as colheitas daquele ano não prosperariam e  que se o povo permanecesse ali não haveria comida para todos e eles pareceriam. Mas o homem Era duro e áspero como uma espinheira e recusou-lhes o conselho.

Então, tendo vindo o inverno mais frio de todos, um dos homens do chefe pôs-se a dizer que as três irmãs eram bruxas e que, por isso, deveriam arder nas chamas profanas da fogueira sagrada. E o povo, porque tinha medo, cuidou para que as três mulheres mais velhas do que os bosques que os cercavam fossem queimadas e mortas.

No entanto, a morte das três bruxas não atenuou o sofrimento daquela gente que ao volver do verão seguiu sem colheita e feneceu na fome numa terra que não era sua e desamparadas por um deus que também não era seu.

Autoria:

Ariel Von Ocker, nome social de Gabriel Felipe Montes Lima.

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