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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A culpa é do Messias

Apesar da chuva fina e contínua, decidi ir ao centro comprar pequenas coisas que pensava necessárias. Talvez encontrasse produtos em ofertas no mercado. O momento exige pechincha. Como dizia meu amigo Vime, — que Deus o tenha —, a coisa está sem cor. Talvez fosse esse o jeito encontrado por ele, há anos desencarnado, para combater questões de racismo. Era negro.

Decidi ir caminhando, sob a proteção de um guarda-sol improvisado como guarda-chuva. Não que estivesse querendo poupar gasolina. O tanque do carro estava cheio. Afinal, como disse o presidente, o preço da gasolina está ótimo. A meta era gastar calorias e encurtar a barriga.

Na saída de casa, pela porta de fundos, deparei-me com um jovem de aproximadamente vinte e cinco anos pedindo algum alimento. Justificou que os filhos haviam saído para a escola sem desjejum e ao retornarem não teriam comida.

Perguntei se trabalhava e respondeu-me negativamente. Ofereci o pagamento de um dia de serviço em troca de limpeza de um pequeno quintal. Disse-me que não estava pedindo trabalho, mas comida. Neguei a comida e cai para cima dele com uma vassoura. Não apanhou por que correu. Me excedi, mas penso que me livrei daquele sujeito que tinha dia e hora marcada, semanalmente, para fazer a feira em minha casa.

Mais adiante, encontrei uma senhora. Pelo comportamento, parecia sofrer de algum distúrbio cerebral. Deu um bom dia entusiasmante o qual respondi com certo subestimo. Antes que me afastasse pediu-me dez reais. Respondi não e me afastei.

Pus-me a caminho do mercado e a poucos metros outro pedinte. Esse nem reparei. Fingi cegueira e surdez para não o destratar.

Chegando ao mercado, um senhor bem alinhado, com roupas bem passadas cobrindo braços e pernas, cinto e sapatos limpinhos chamou-me em separado, apresentando uma relação de produtos que jurara ser para sua filha que havia acabado de dar à luz. Não contei, mas eram pelo menos quinze itens.

Olhei sério para ele e não me contive. Perguntei se era só. Disse que sim. Daí comecei a derramar meu cálice de raiva. Um conhecido se aproximou e me retirou dali aconselhando-me a ignorar, o que não seria mais possível.

Entrei no mercado, selecionei os produtos que levaria e me dirigi ao caixa. Ali percebi o que justificava a existência de tantos pedintes. Com a diferença que a esses não somos obrigados a entregar nada. Pior será quando fizerem como os patrões dos atendentes de caixa.

Em casa, refleti sobre as ocorrências e desabafei com a moça da faxina, que, como pessoa muito religiosa, me deixou ainda mais acabrunhado, dizendo:

— Isso é produto de Messias.

Como católico praticante e arrependido comentei:

— Verdade. Às vezes Jesus se passa por mendigo para nos colocar à prova. Pequei várias vezes num só dia. Preciso me confessar, concluí.

— Pecou não senhor. Esses ‘Jesuses’ pedem lá em casa também. — Estou falando do outro Messias, completou.

Entendi a relação e descartei a confissão. As palavras daquela moça me absolveram.

Autor:

Pedro Paulino da Silva

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