Trabalho e dignidade

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Sou, há muitas décadas, morador de um mesmo endereço. Tenho “clientes”, como eu os denomino, que em períodos, mais ou menos, regulares batem à porta solicitando ajuda. Muitos, os conheço de longa data e, eventualmente, deparo-me com eles em regiões diversas da cidade, pedindo esmolas que lhes garantem a sobrevivência. Quase todos demonstram algum tipo de deficiência ou idade avançada, e aos quais ninguém se dispõe a empregar.

Um desses “clientes” foge ao estereotipo acima. É o Paulo. Aparentando 50 anos, saudável, bem articulado, ele aparece uma vez por semestre. Ao ser atendido, pede para falar comigo, se perguntado sobre o assunto ele diz que se trata de algo particular. A conversa desenvolve-se no script semestral: “Prof. Danilo, o senhor está se lembrando de mim, fui vigilante da casa de frente?”, referindo-se a casa vizinha que por certo tempo esteve alugada para uma embaixada que mantinha vigilância por 24 horas.

Antes que eu pudesse responder, Paulo já apresentava o papel com o novo drama: operação da esposa, enterro da mãe ainda insepulta por falta de recursos, filho atropelado internado no HRAN e dois netos sem terem o que comer, corte de energia e situações emergenciais a resolver. Não chego a ler o papel que ele me passa após desdobrá-lo. Troco um dedo de conversa sobre o que ele anda fazendo e lhe dou o agrado esperado.

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Minha mulher, que apesar de ser pessoa caridosa, fica irritada comigo. “Você não vê que esse homem está fazendo você de bobo? Sempre uma historinha e você cai de novo, meu Deus! Ele não trabalha porque não quer, é forte, novo e demonstra saúde. Perdeu, foi a vergonha!”

Zélia tem razão… em parte, Paulo perdeu, por algum motivo, a dignidade, possivelmente ao ter tido que recorrer à caridade pública em algum longo período de desemprego. Ficou alquebrado, e deu adeus ao orgulho de poder manter-se e à sua família com o resultado do seu trabalho. Assim vejo Paulo e os milhões de Paulos e Marias deste país. A relação entre trabalho e dignidade é a base da Encíclica Laborem Exercens (Sobre o Trabalho Humano) do Papa João Paulo II, que deveria estar na cabeceira de qualquer dos nossos políticos, independente do credo que praticassem.

Em sã consciência, ninguém pode ser contra os programas de auxílio social que as populações carentes do país recebem, sejam eles programas de longo prazo ou emergenciais. Sobre o que se deve refletir é quanto ao uso político-eleitoral desses programas. Se a notícia que vi na mídia estiver correta, o Auxílio Brasil deverá atender à 16,9 milhões de famílias carentes. Admitindo-se um número médio de 5 pessoas por família, o benefício alcançaria mais de 80 milhões de brasileiros, aproximadamente 38% da população do país, se não me falha a aritmética.

Esses números podem tornar verossímil a versão de uma conversa que teria ocorrido entre Lula e Dirceu por ocasião da criação do Bolsa Família, em outubro de 2003, quando este, teria dito ao candidato à reeleição: “Só com isso, você tem garantido 40 milhões de votos”. O artifício da troca de votos por benefícios não é coisa nova. Roriz ficou conhecido pela distribuição de pão e leite aos necessitados do Distrito Federal. No passado, as chamadas “frentes de trabalho” no Nordeste, eram maneiras de criar trabalho e transferir recursos para famílias sem renda.

A novidade foi o auxílio em pecúnia. Muito discutido na época, tem vantagens evidentes que vão desde a irrigação da economia pelos municípios mais pobres até deixar às famílias a opção de aplicarem o que recebem naquilo que mais necessitam.

O que causa espécie é a clara percepção de estarem esses contingentes populacionais sendo usados como massa de manobra em eleições. Contas simples chegam a ser feitas: “a cada cem reais de acréscimo na bolsa, uns tantos milhões de votos a mais”. Uma boa sugestão é acabar com a reeleição, em péssima hora instituída, em 1997, à peso de ouro. Seu mentor, há dias, em entrevista, se disse arrependido em ter bancado por isso.

Governos se sucedem, CPIs, promessas e conversas vazias. Nenhuma iniciativa para que se construa um projeto de longo prazo para o desenvolvimento do país. Nenhuma valorização do saber e dos seus mestres. Enquanto isso, a ciência sofre cortes do pouco que lhe era destinado, as nossas melhores cabeças arrumam as malas e aceitam convites de países nos quais se acredita que ciência e tecnologia promovem o poder e a riqueza nacionais.

A desesperada massa de manobra aumenta, como a massa do pão que lhe falta – mais votos garantidos –, cresce inoculada com o velho fermento cultivado na Praça. Não há Teto, nem o de Gastos, que a contenha, multiplicando-se na velocidade da inflação e da desídia.

Tudo hoje tão parecido com o ontem. Na Praça, os que se dizem ideologicamente inconciliáveis deixam cair as máscaras e se unem em defesa da corrupção deslavada que transcende o tempo, mas a todo custo conservam as rotas fantasias das pantomimas partidárias.

Até quando?

Crônicas da Madrugada.

Autor:

Danilo Sili Borges, membro da Academia Rotária de Letras do Distrito Federal. ABROL BRASÍLIA. Brasília – Out. 2021

danilosiliborges@gmail.com

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