Mengele e as Batatas

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Comecei a me interessar pela história de Josef Mengele em 1985, quando os restos mortais do nazista foram exumados em um cemitério de Embu, São Paulo (morrera afogado em 1979, no litoral de Bertioga). Quanto mais eu lia sobre as experiências médicas atrozes por ele conduzidas, mais eu sentia que a justiça não fora feita, afinal, Mengele nunca pagou pelos seus ilícitos, mesmo sendo o criminoso de guerra mais procurado do mundo. Alguns colegas dele, por outro lado, não tiveram tanta sorte. Adolf Eichmann, arquiteto da Solução Final, foi sequestrado pelo serviço secreto israelense na Argentina (país em que Mengele primeiro morou na América do Sul) e executado na forca dois anos depois. Herberts Cukurs, que matou mais de dez mil pessoas numa floresta, morreu no Uruguai em 1965, espancado e baleado na cabeça por agentes do Mossad.

No entanto, conhecer melhor a trajetória do médico após janeiro de 1945, quando ele fugiu de Auschwitz com poucos dias de vantagem sobre o Exército Vermelho, amenizou um pouco esse mal-estar que a impunidade dele me provocou. Percebi a formidável debacle do outrora todo-poderoso senhor da vida e da morte. Descobri que Mengele se tornou alguém irascível porque frustrado pela perda da autoridade e constantemente assombrado pela possibilidade de captura. Um homem mal resolvido com o único filho e um médico com aspirações intelectuais acentuadas, mas cujas pesquisas em Auschwitz foram consideradas pseudociência inútil. Foi essa, creio, a forma que a vida encontrou para punir um pouco o nazista pelos seus crimes.

Uma passagem da existência do médico é bastante ilustrativa: Mengele, sob identidade falsa, teve de ganhar o sustento em uma fazenda na Alemanha fazendo serviços subalternos, dentre os quais selecionar batatas para o consumo. Imagino que ter de conseguir assim o pão de cada dia foi um golpe formidável no orgulho do homem que, na plataforma de desembarque de Auschwitz, havia poucos meses, brincava de Deus e decidia, com um simples gesto de mão, quem dentre os recém-chegados deveria viver ou ser enviado às câmaras de gás.

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Para completar, Josef Mengele, que tanto falava em pureza racial, acabou se refugiando e morrendo num dos países mais miscigenados do mundo, terra do mulato Machado de Assis, autor de Quincas Borba, cuja máxima sobre guerra e sobrevivência do mais forte – assuntos tão caros ao Anjo da Morte – eu peço licença para inverter: ao vencido, as batatas.

Autor:

Ataíde Menezes

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