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sábado, 22 de janeiro de 2022

Cisnes negros e tintura para cabelo

Durante o último encontro matinal comigo mesmo no espelho do banheiro, cogitei tingir, daqui a poucos anos, meus já prolíficos cabelos brancos. Porém, Tolstói me demoveu da ideia.

Explico. Acontece que, quase vinte anos após a primeira leitura, concluí pela segunda vez o livro A Morte de Ivan Ilitch. Saí mais impressionado do que antes com a história. Natural que a obra seja mais eloquente à medida que o leitor envelhece, pois ela trata do inescapável fim da existência. No caso de Ivan Ilitch, que expirou aos 45 anos de idade, o processo de morte, lento e inexorável, foi desencadeado por um idiota acidente doméstico, desses que podem acontecer com qualquer um.

Quem dera fôssemos imortais!, pensei ao fechar o livro. De vez em quando até alimentamos ilusões em relação a isso. Temos rompantes de Piort Ivânovitch, personagem da novela, o qual, no velório do protagonista, tenta controlar a angústia com a absurda e fugaz crença na própria imortalidade, “como se a morte fosse uma aventura inerente a Ivan Ilitch apenas, e de modo nenhum a ele também”. Ouvi, certa vez, que durante muito tempo as pessoas acreditaram que todos os cisnes eram brancos – até que, destruindo essa certeza lastreada em evidências empíricas, um cisne negro (na Austrália, se não me engano), apareceu pela primeira vez aos olhos de alguém. Pois o ser humano, no fundo, deseja ser a exceção, o equivalente a um cisne negro que tornará falsa a premissa maior “todo homem é mortal”. Por enquanto, infelizmente, não há entre nós tais espécimes de penas escuras. Quem sabe num futuro próximo, com os avanços da ciência… Mas para os cisnes de hoje, todos eles brancos como os cabelos de alguém que envelhece, não há jeito de contornar o fim.

Não, desafortunadamente não somos cisnes negros. Quando muito, podemos ser albatrozes-errantes, aves longevas e de grande envergadura. Mas nem todo mundo chega a uma idade provecta. Não esqueçamos Ivan Ilitch e a desdita que o colheu no auge da vida. Não esqueçamos o desafortunado albatroz do poema de Baudelaire, ave que, subtraída à imensidão do céu, capturada que foi pelos marujos de um navio, vira alvo da chacota dos homens da equipagem: “Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés / O monarca do azul, canhestro e envergonhado / Deixa pender, qual par de remos junto aos pés / As asas em que fulge um branco imaculado / Antes tão belo, como é feio na desgraça! / Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça / Outro, a coxear, imita o enfermo agora alado.” Convém, portanto, ser albatroz com expectativas de algum pássaro efêmero e miúdo, como o bem-te-vi.

Jamais tingirei minhas cãs. Por dois motivos bem simples: em primeiro lugar, porque o branco me lembra de que não sou exceção à regra da mortalidade. Somos todos Ivan Ilitch. Em segundo lugar, porque entendo que envelhecer é um privilégio, ao contrário do que afirma muita gente que (com o perdão do neologismo) patologiza a senectude. Pensando bem, deixar os fios grisalhos em paz e aceitar de bom grado as marcas do tempo será minha forma de protestar contra todo e qualquer ageísmo.

Ou, o que é mais provável, não escureço os cabelos simplesmente porque tenho medo de escolher uma tintura ordinária, que se refugia no colarinho à primeira garoa.

Autor:

Ataíde Menezes

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