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sábado, 15 de junho de 2024

Vale tudo para ganhar a Champions

O PSG há alguns anos é a força hegemônica, quase monopolística, no futebol francês. Nas dez últimas temporadas a equipe de Paris conquistou sete títulos nacionais dos nove que o clube possui com os fortíssimos aportes financeiros provenientes de um fundo de investimentos do Catar QSI (Qatar Sports Investiments). O projeto, desde suas origens, é tornar a equipe francesa em uma grande força continental e, consequentemente, conquistar a Champions. O alvo quase foi alcançado na temporada 2019-2020 quando a equipe francesa foi derrotada pelo Bayern na final disputada em Lisboa em 2020. Na última edição, o PSG chegou perto, mas foi eliminado na semifinal pelo Manchester City, outro clube que também busca de forma ávida e com vultosos aportes financeiros a conquista de sua primeira Champions.

Para a temporada 2021/2022 o PSG não havia poupado recursos antes de sua última e, sem dúvida, mais impactante contratação. Antes de tratar dela, vejamos quem chegou: o excelente goleiro italiano Donnarumma, o experiente zagueiro Sergio Ramos, o lateral Hakimi e o meia Wijnaldum. Além disso, comprou em definitivo Danilo Pereira. Mas faltava a “cereja do bolo” e ela era o sonho há muito acalentado pelo CEO da QSI, Nasser Al-Khelaifi. Enfim, o desejo se concretizou e Messi envergará a camisa da equipe francesa.

O futebol costuma nos pregar muitas peças e destroçar os prognósticos dos entendidos. Mesmo sabendo disto, minha opinião é que o PSG, no papel, é a melhor equipe europeia e mundial. Se pensarmos apenas no poderio ofensivo, sem levar em conta as outras posições que contam com excelentes jogadores, Messi, Mbappée e Neymar, o MMN é de botar medo em qualquer adversário. Considero tão ou mais perigoso que o MSN (Messi, Suárez e Neymar) que fizeram história no Barcelona.

Para o Campeonato Francês, o PSG é um desperdício de talento. A equipe se encontra a anos-luz dos outros adversários e só deixará de conquistar os títulos internos se quiser e ainda terá que se esforçar muito para isto. Porém, o objetivo é a Champions e aqui, mesmo sabendo que o buraco é mais embaixo, já é um dos principais favoritos senão o principal. É verdade que é preciso dar entrosamento para a equipe e encontrar o sistema tático mais adequado, mas convenhamos que isto é bem mais fácil quando se conta com grandes estrelas do que com uma porção de “cabeças de bagre”.

E o Fair Play Financeiro? Antes mesmo de contratar o craque argentino, a massa salarial do PSG era equivalente ao total de suas receitas. Contando com um investidor financeiro que parece contrariar uma das leis da economia, a que afirma que os recursos são sempre escassos, e com o atraso da implementação de nova regra na França que determina que os clubes não podem ter folhas salariais que ultrapassem 70% de seu faturamento, o PSG fortaleceu-se. Foi esta regra, já implantada na Espanha, que facilitou a saída de Messi do Barcelona. Mesmo sem o craque argentino, a folha de pagamento da equipe espanhola seria de 95% da receita. Por isso, o clube catalão não conseguiu renovar com o maior ídolo de sua história.

Como a UEFA também relaxou os seus regulamentos sobre o Fair Play Financeiro, a negociação com Messi tornou-se possível. Apesar das circunstâncias favoráveis, espera-se que o PSG venda alguns jogadores e com isso reduza a sua massa salarial. O portal “The Athletic” acredita que dez nomes serão negociados, dentre eles o argentino Mauro Icardi, o espanhol Ander Herrera e o alemão Draxler. 

Podem surgir múltiplos problemas quando se montam elencos tão caros. Um deles, vivenciado costumeiramente no Brasil, são as dívidas que ficam para os clubes quando os investidores vão embora. Por aqui, o Atlético Mineiro está fazendo contratações milionárias, para os nossos padrões, é claro, mas serão elas sustentáveis? Os alegados projetos que envolvem tais contratações não costumam ter finais muito felizes para as finanças do clube, vejam a dívida de 11 milhões que o São Paulo tem agora com Daniel Alves.

Outro problema que precisa ser amplamente debatido é a perda de competitividade dos campeonatos, em particular dos campeonatos locais. O Flamengo, no Rio de Janeiro, tornou-se hegemônico. No Brasileirão, divide com o Palmeiras e o Atlético Mineiro o favoritismo. Na França já destaquei o domínio do PSG na última década. Enfim, se eu e você, meu leitor, não torcemos para uma destas equipes certamente os torneios perdem atratividade, afinal é a competitividade, a rivalidade, a esperança de levantar a taça que nos faz ter interesse pelo campeonato. Neste sentido, o futebol retrata de forma cada vez mais clara a desigualdade de renda que impera em todo o mundo. Alguns com muito e muitos com pouquíssimo.

Se tenho consciência que a equipe pela qual torço não disputará efetivamente o título, dificilmente comprarei uma camisa do clube, me tornarei um sócio torcedor ou irei ao estádio para assisti-la. Os impactos serão sentidos ainda no curto prazo e com o passar do tempo deverão se tornar ainda mais graves. Se o abismo financeiro e de receitas se amplia, as equipes menos favorecidas dificilmente poderão manter seus melhores valores e não poderão contratar atletas de maior qualidade. O resultado é óbvio, o predomínio de alguns poucos sobre muitos. A rivalidade se esvai, muitos torcedores se afastam, os campeonatos que não tenham caráter nacional ou internacional deixam de ser atrativos para os patrocinadores e a competitividade se reduz a um número reduzido de clubes.

Não é fácil resolver a questão. A regra do teto de gastos a partir de um percentual do faturamento não resolve o problema, é apenas uma paliativo. Gastar até 70% do faturamento com contratações tem um significado completamente distinto entre os gigantes e os pequenos. Se for adotado este caminho, entendo que o mais correto, se o objetivo é elevar a competitividade e reduzir a disparidade do poderio econômico, seria dispor, a partir dos diversos faturamentos, de percentuais distintos entre os clubes. Ao final, os recursos que não poderiam ser aplicados em novas contratações poderiam ser aplicados para o desenvolvimento do futebol feminino da equipe e para a formação e fortalecimento da base.

Infelizmente, os movimentos que verificamos nos grandes clubes europeus vão em sentido oposto. A defesa da criação de ligas cada vez mais exclusivas e, consequentemente, excludentes é a trilha já delineada por eles. Me lembro com saudosismo dos campeonatos cariocas quando Botafogo, Flamengo, Vasco, Fluminense, América e Bangu disputavam arduamente o título. Tempos idos. O que me resta é saudosismo e nostalgia.

Autor:

Luiz Henrique Borges

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