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quinta-feira, 29 de julho de 2021

A ansiedade como estatuto autoatualizador da pessoa e os acompanhamentos psicoterápicos não-presenciais: compactuações da ordem da possibilidade.

Carl R. Rogers (1902-1987) destacado psicólogo de orientação humanista, teceu os fios do seu direcionamento teórico compreendendo a pessoa como detentora de possibilidades manifestadas e/ou encobertas para fazer compreensões profundas sobre si mesma e solucionar problemas com proficiência alcançando níveis satisfatórios de funcionamento adequado/ótimo. E há ainda na pauta de possibilidades da pessoa, de acordo com este cientista pragmático, uma disposição natural de desempenhar movimentos harmônicos baseados naquilo que denominou ‘tendência autoatualizante’. Observa-se ainda que a pessoa está no centro da sua existência e traz em si o molde das mutações e vivencia experimentações que são congruentes com as suas escolhas e, portanto, substitui cenários desfavoráveis e/ou desinteressantes desobstaculizando sua área de movimento.

Frente a situações perigosas aparece o medo que representa a acomodação normativa de movimentos facilitadores de enfrentamentos, ficar e lutar/fugir. O medo e a ansiedade estão intimamente conectados. Assim, as escolhas realizadas frente a um episódio de medo determinarão os próximos caminhos psicobiológicos que se seguirão. As definições científicas acerca do que é patológico ou normativo são descritas a partir de medo e ansiedade ‘exagerados’. Provavelmente os mais atentos questionariam qual a medida se usa para exagero e/ou qual padrão de acareação está sendo utilizado. Assim, exagerado comparado com o quê ou quem? As comparações, de acordo com os estudiosos, advêm de parâmetros envolvendo faixa-etária, gênero, constituição familiar e afins. Há estudos envolvendo também as condições de predisposições neurobiológicas herdadas.

Porém, medo e ansiedade quando contemplados sob os auspícios da ACP, conquista status possibilitadores de movimentações saudáveis, uma vez que estremecem as bases antes tidas como sólidas. A partir da desorganização interna, ocorre a tomada de consciência da necessidade de buscar compreensões mais transparentes, a pessoa solidifica definições em seu campo experiencial, observando nitidamente traços isolados da sua identidade culminando na aproximação saudável das instâncias realizadoras do eu (self), onde há referências de sentimentos, sensações, lembranças, percepções etc que se apresentam confusamente mesclados e a partir das imersões psicoterápicas é possibilitado à pessoa reestruturar o seu espaço fenomenológico, estabelecendo nítida percepção de si e das demais pessoas. De uma forma simbólica a pessoa pode recarregar-se energeticamente nas instâncias do eu ideal, onde armazena suas fantasias e idealizações, porém a pessoa saudável não intenciona estacionar neste espaço, ao contrário, move-se para as cercanias do eu real, onde as movimentações ocorrem nas delimitações da objetividade, e onde se admite fazer construções fundamentadas em bases sólidas, nas quais é possível tocar e sentir a textura. O livre trânsito entre self ideal e self real é o desemboque mais promissor contabilizado a partir das vivências genuínas e empáticas orientadas pelas vias humanistas.

Levando em conta tal postura teórica, compreende-se que aos desafios contemporâneos contrapõem-se, estabelecendo demarcações pontuais acerca das exigências voltadas para repaginações nas formas de acolhimento das pessoas que já estavam em acompanhamento regular, bem como das pessoas que optaram por assistência subjetiva durante a atipicidade dos ataques biológicos. E vale demarcar que estas últimas, na sua grande maioria, não o fizeram motivadas por desencadeamentos emocionais relacionados ao isolamento e afins.

A partir das manobras de busca por parte da pessoa, acopladas ao domínio teórico e da habilidade técnica do psicoterapeuta, desponta-se um ambiente de trabalho propício para ressignificações profundas, as quais se dedicam as atividades psicoterápicas. O exercício cotidiano das videoconferências clínicas apresenta solo fértil e parece se coadunar com o fato de que os acompanhamentos nos setting’s virtuais têm tanta robustez quanto as encontradas nos ambientes presenciais.

No seguimento psicoterápico adequado, Rogers anuncia a necessidade de posturas adequadamente adotadas pelo facilitador, assim, a principal delas é sem dúvida a compreensão empática, que diz respeito ao acolhimento genuíno das experiências subjetivas da pessoa que busca a imersão em suas profundidades singulares. É valioso lembrar que a pessoa se encontra num posicionamento favorável porque é a única que sabe de si sem emendas, obscuridades e quaisquer outros artifícios que possam obstruir a apreensão da sua realidade interna. Curioso é que quando a pessoa oraliza sobre o seu universo interno, esta não consegue nomear as mais internas experiências, ao passo que os cientistas o fazem, e então agrupamentos e nomenclaturas saem dos manuais científicos em formato de diagnóstico, e adentram nas subjetividades batizando experiências íntimas como enfermidades, às vezes incuráveis.

Talvez seja profícuo o fato de os representantes da saúde, especialmente os da saúde mental, anunciarem o quanto as manifestações subjetivas são bem-vindas em momentos de excepcionalidade. Tais expressões emocionais sinalizam os potenciais humano e saudável que habitam na intimidade personalizada. O quanto de humano e, portanto, natural, existe no medo, na angústia, na dor, na ansiedade.

Autora:

Cassima Duarte

Psicoterapeuta da Abordagem Centrada na Pessoa – ACP, doutoranda em psicologia

10 COMENTÁRIOS

  1. Doutora Cassima é necessário ressaltar o quanto é acolhedor com os leitores ter esses momentos de leituras específicas da área da Psicologia no Jornal Tribuna, tão fundamental e esclarecedor. PARABÉNS pelo seus artigos e livros. É fortalecedor e revigorante para nós profissionais da área ter acesso aos seus textos exemplarmente científicos. 👏

  2. Doutora Cassima é necessário ressaltar o quanto é acolhedor com os leitores ter esses momentos de leituras específicas da área da Psicologia no Jornal Tribuna, tão fundamental e esclarecedor. PARABÉNS pelo seus artigos e livros. É fortalecedor e revigorante para nós profissionais da área ter acesso aos seus textos exemplarmente científicos. 👏

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