A Fatura Invisível das Motinhas Elétricas: O Sedentarismo Motorizado e o futuro Colapso da Saúde Pública

As ruas da Baixada Santista assistem a uma rápida transformação na mobilidade urbana com a
explosão das motinhas elétricas. Contudo, o debate público sobre o tema tem sido míope, limitando-se quase apenas à segurança viária e ao risco de acidentes. É preciso dar um passo além: o maior perigo desses veículos não é apenas quando eles batem, mas quando eles funcionam perfeitamente e substituem o movimento humano básico.
Estamos ignorando uma fatura bilionária que a saúde pública terá que pagar devido à inércia física de uma nova massa de condutores. Para entender a gravidade, é preciso identificar quem são os usuários massivos desses veículos. O consumo concentra-se em duas categorias que, até então, não poluíam o meio ambiente : jovens de 14 a 17 anos e adultos sem habilitação. Ambos dependiam exclusivamente da bicicleta ou da caminhada.
O paradoxo é alarmante: essas categorias já eram “ecologicamente corretas”. Ao trocarem o pedal
pelo acelerador para percorrer distâncias irrisórias, o ganho ambiental é nulo e a perda biológica é
catastrófica. Ficou fácil demais: ligue-se o motor para buscar o pãozinho na padaria a 400 metros de
casa, para ir ao mercado a apenas 300 metros ou para um deslocamento mínimo até a orla da praia.
Essa motorização do esforço cotidiano atrofia o condicionamento do “motor” mais importante do corpo: o coração. O debate não pode ser apenas sobre traumas e fraturas; deve ser sobre o efeito de
patologias que são o pesadelo da gestão pública:
Hipertensão e Problemas Cardiovasculares: Sem o exercício de pedalar ou caminhar, as artérias
tornam-se mais rígidas. O sedentarismo acelera o acúmulo de placas de gordura, elevando o risco de
infartos e de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) , cujos custos de UTI e reabilitação são
astronômicos para o Estado.
Diabetes Tipo 2: O esforço físico é o principal mecanismo de queima de glicose. Sem uma simples
caminhada até a esquina, o corpo desenvolve resistência à insulina, gerando uma legião de diabéticos
que dependerão de medicamentos gratuitos por toda a vida.
A saúde pública já gastou bilhões com doenças crônicas que seriam evitáveis. Ao negligenciarmos a
motorização de trajetórias que antes eram feitas a pé, estamos fabricando pacientes em série. O
Estado, que já sofre para tratar os traumas dos acidentes, terá agora que cuidar de uma vida inteira de
complicações de saúde para uma geração que trocou o vigor físico pelo “conforto” de não precisar
mais caminhar.
Não podemos tratar as motinhas elétricas apenas como um avanço na mobilidade. Se não houver
consciência de que o motor elétrico não deve substituir o músculo humano em trajetórias banais,
veremos o colapso do sistema de saúde ser acelerado por pessoas que trocaram a longevidade pela
ilusão de não precisar mais fazer o mínimo esforço para viver.

Autor:

Daniel Maiorano

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