O e-mail, o WhatsApp e as Redes Sociais trouxeram coisas ruins, como golpes e Fake News, mas também coisas boas, como a possibilidade de localizar velhos amigos. Gente que não se via há décadas, perdidas mundo afora, puderam se reaproximar. Para localizar amigas há um problema adicional: a mudança do sobrenome após o casamento. Em alguns casos, após vários casamentos.
Ana Lisa contou com a boa vontade relativa da filha solteira e ranzinza para localizar os colegas do Colégio. Conseguiu contatar Fatah Lismo, Lucas Katta e o Zeca Lorozzo. A comunicação não foi fácil, porque Fatah usa aparelho auditivo e não escuta bem as mensagens de áudio. Lucas tem problemas de visão e não participou das conversas por vídeo, porque não fala com quem não vê. Zeca tem TDAH (Déficit de Atenção e Hiperatividade). Fala muito, mas viaja em todos os assuntos. Ana Lisa, psicóloga, tem lapsos de memória e é estrábica, fala com as pessoas olhando para outro lado, não se lembra dos problemas dos pacientes e perdeu vários deles.
A alegria do contato com os antigos colegas, após décadas sem se falarem, foi imensa. Combinaram um longo encontro presencial para poderem se abraçar e conversar à vontade. Agendaram a reunião para três meses, no dia 5 de julho, 17 horas num restaurante italiano no Shopping Cidade Jardim.
Ana Lisa reservou mesa e, quando chegou, os três já estavam petiscando. A aparência mudou bastante, pois já faz quase meio século que não se veem. Ana sorriu, distribuiu abraços, beijos, derramou lágrimas e foi festejada por todos.
Se alguém tivesse filmado e gravado os diálogos, teria sido hilário. Todos falando ao mesmo tempo, não escutando direito, não conseguindo ler o menu e ninguém se entendendo. Celulares tocavam, ninguém atendia, não por educação, mas por não escutarem ou saberem que barulho era aquele.
Num dado momento, Lucas propôs um brinde, com café sem cafeína e leite sem lactose. Tentou se levantar, não conseguiu, então entoou o brinde sentado:
– Aos bons tempos do Colégio São Luiz!
– Não era Colégio São Paulo? – perguntou Lisa.
– Acho que estudei no Santa Catarina – disse Zeca.
– Então, um brinde aos amigos do Colégio Todos os Santos – emendou Lucas.
Lisa questionou o nome do Colégio ao Lucas, porém a estrábica parecia olhar para Fatah, que não respondeu por que ajeitava o aparelho auditivo e não ouviu nada. Todos tentavam lembrar onde estudaram e o que estavam fazendo ali. Zeca pediu licença para ir ao banheiro. Na volta, por causa do TDAH, sentou-se em outra mesa, onde três cegos aguardavam atendimento e não o notaram. Zeca não se fez de rogado e pediu café com leite a um policial da mesa ao lado. É um restaurante italiano, mas o dono mandou o pessoal atender os idosos no que desejarem.
Os celulares continuaram tocando insistentemente, até que a filha da Ana Lise chegou ao restaurante, com ajuda do rastreador do celular:
– Mãe, ligaram do Shopping Cidade Jardim procurando por você.
– Mas eu estou aqui, querida. O que eles querem comigo?
– Aqui é o Shopping Cidade de São Paulo, na avenida Paulista.
– Como é que meus amigos vieram ao local certo?
Chegaram mais três pessoas. O filho do Zeca, a filha do Lucas e a cuidadora da Wanda Lismo, prima da Fatah, também deficiente auditiva, que se desgarrou quando foi ao banheiro. Todos procurando os entes queridos que estavam sumidos a tarde toda.
Os supostos amigos eram Zeca Laffrio e Lucas Trado. Ana Lise se atrapalhou com os sobrenomes e foi ao Shopping errado. Sentou-se com aquele grupo pensando serem os amigos. Dos seus reais amigos, Lucas Katta faleceu dias antes, Zeca Lorozzo entendeu 5 de junho, compareceu, esperou, não encontrou ninguém e foi embora. Fatah Lismo não ouviu direito a mensagem e ficou em casa.
Mas nem tudo foi ruim. Ana Lise fez três novos amigos e Mara Kuthaia, sua filha impaciente, engatou namoro com o filho do Lucas Trado, rapaz atencioso. Com auxílio dos filhos e da cuidadora, foram à Missa de Sétimo Dia do Lucas Katta. Após a missa, conversaram bastante, menos Fatah Lismo, que esqueceu o aparelho auditivo em casa.
Dizem que só existem duas coisas certas neste mundo: uma é a morte e outra é: para uma medida de arroz, duas de água. Tem quem prefira arroz integral, arbório parboilizado e há quem não coma arroz. Mas a morte é certa, e para todos. Então, celebremos a vida, mesmo com amigos que não enxergam ou escutam direito, amigos atrapalhados ou portadores de algum tipo de limitação. Para quem se acha normal, é bom lembrar que, de cada 4 idosos, um tem, algum tipo de problema mental. Antes de rotular os outros, examine três amigos. Se parecerem normais, o doido é você. Vida que segue.


