No Dia Mundial do Trabalho, reflexão propõe ampliar o conceito de trabalho diante do crescimento de atividades ligadas à cultura, à escuta e à produção de sentido
No 1º de Maio, as discussões sobre trabalho no Brasil ainda se apoiam em categorias tradicionais como emprego formal, produtividade, carteira assinada e crescimento econômico. Referências fundamentais para a organização da vida social, mas que já não dão conta, sozinhas, da complexidade das formas contemporâneas de trabalho.
Uma parcela crescente da atividade humana não se organiza mais pela produção de bens materiais, mas pela produção de sentido. Trata-se de um campo em que os resultados não se medem em unidades ou estatísticas, e sim em transformações simbólicas, emocionais e culturais — e que, ainda assim, permanece frequentemente fora do reconhecimento pleno do que se entende por trabalho.
Nesse contexto, a reflexão do filósofo italiano Nuccio Ordine ganha atualidade. Em “A utilidade do inútil: um manifesto” (Zahar), o autor critica a tendência contemporânea de reduzir o valor das atividades humanas à sua utilidade imediata. Quando arte, literatura e filosofia passam a ser avaliadas apenas pelo retorno econômico, deixam de ser vistas como centrais para a formação humana — embora sejam justamente elas que sustentem a imaginação, o pensamento crítico e a vida em comum.
Essa lógica ajuda a compreender a posição ambígua de diversas profissões ligadas à palavra, à escuta e à mediação cultural. Contadores de histórias, músicos, artistas, tradutores, mediadores de leitura, educadores culturais, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais e agentes comunitários de saúde exercem atividades que exigem formação, técnica e responsabilidade, mas que ainda são frequentemente percebidas como vocação ou expressão pessoal — e não como trabalho estruturado.
Trata-se de um campo que opera no plano imaterial da vida social: não produz objetos tangíveis, mas experiências. Atenção, escuta, imaginação, linguagem e vínculo tornam-se matéria de trabalho. Em escolas, hospitais, bibliotecas, centros culturais e territórios diversos, esses profissionais constroem repertórios simbólicos que impactam diretamente a forma como indivíduos e comunidades se percebem e se relacionam com o mundo.
Essas atividades são essenciais para o desenvolvimento do senso crítico — a capacidade de analisar, questionar e avaliar informações antes de aceitá-las como verdadeiras ou tomar decisões. Trata-se de uma competência cada vez mais necessária em um contexto marcado pela disseminação de desinformação e pelo uso de tecnologias capazes de simular e manipular cenários.
No Brasil, esse debate ganha força em um cenário cultural vibrante, mas ainda marcado por fragilidades estruturais. Muitas dessas ocupações se organizam em regimes de intermitência, projetos temporários, múltiplas fontes de renda e alta informalidade, o que dificulta sua consolidação como carreiras estáveis.
Romper essa “bolha” de reconhecimento — na qual determinadas profissões ainda são vistas como acessórias — exige políticas públicas consistentes de incentivo à cultura e à leitura, maior presença dessas práticas em instituições e mecanismos contínuos de fomento. Mas exige também um elemento decisivo: a convicção social de que essas atividades produzem impacto real, ainda que esse impacto não seja imediatamente mensurável.
Nesse contexto, a trajetória da escritora, contadora de histórias e biblioterapeuta Clara Haddad se destaca como exemplo concreto. Com mais de três décadas dedicadas à arte narrativa, ela construiu uma carreira internacional entre Brasil e Portugal, com atuação em mais de 12 países.
Seu trabalho articula narração oral, literatura infantil e formação de mediadores de leitura, integrando criação artística e ação formativa em diferentes contextos culturais. Ao longo desse percurso, consolidou presença em escolas, instituições e projetos diversos, demonstrando como uma profissão frequentemente vista como “não convencional” pode alcançar reconhecimento e circulação internacional.
Mais do que um caso individual, sua trajetória evidencia um ponto central: é possível romper a barreira de um mercado ainda percebido como alternativo — mas isso exige continuidade, empenho e determinação para sustentar práticas que nem sempre encontram reconhecimento nas estruturas tradicionais.
O Dia do Trabalho, instituído no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas, consolidou direitos ligados ao emprego formal. Mais de um século depois, no entanto, o mundo do trabalho se transformou profundamente, incorporando uma dimensão crescente de atividades imateriais que ainda não encontram reconhecimento equivalente.
O desafio contemporâneo é reconhecer que uma parte significativa da produção social é imaterial — e que isso não a torna menos relevante. Ao contrário: são essas práticas que sustentam dimensões essenciais da vida coletiva, como a linguagem, a imaginação, a escuta e a capacidade de elaborar experiências comuns.
Talvez o que esteja em jogo hoje não seja apenas ampliar o mercado de trabalho, mas ampliar o próprio significado de trabalho. Porque há atividades que não produzem objetos — produzem algo mais difícil de medir, mas indispensável para que a sociedade continue a imaginar o próprio futuro.
Autor:
Thiago Paleari

