Europa proíbe destruição de roupas e força indústria da moda a transformar estoque em estratégia Nova legislação muda lógica do setor, pressiona operações e acelera adoção de soluções mais eficientes de distribuição
A decisão da União Europeia de proibir a destruição de roupas e acessórios não vendidos marca um ponto de virada na indústria da moda. A medida, que impede empresas de descartar produtos novos como forma de controlar oferta ou preservar posicionamento de preço, inaugura uma nova lógica de operação, onde o excedente deixa de ser um problema a ser eliminado e passa a exigir gestão estratégica.
Durante décadas, o excesso de estoque foi tratado como um custo inevitável do setor. Coleções sazonais, previsões imprecisas de demanda e ciclos acelerados de produção geravam volumes que nem sempre encontravam saída comercial. Nesse contexto, a destruição de peças surgia como solução para evitar impacto na percepção de valor das marcas. Agora, esse modelo deixa de ser viável.
“A proibição da destruição de estoques muda completamente a lógica do setor. O que antes era tratado como perda passa a ser um ativo que precisa ser bem gerido”, afirma Leonardo Mencarini, CEO e cofundador do Mercado Único.
Na prática, a mudança desloca o foco da eliminação para a gestão. O excedente passa a exigir planejamento, estratégia e execução mais estruturada. Isso envolve desde a concepção das coleções até a definição dos canais de venda, com maior controle sobre mix, giro e distribuição. O desafio deixa de ser simplesmente reduzir perdas e passa a ser transformar estoque parado em receita, sem comprometer o posicionamento da marca.
Esse novo cenário também impõe uma revisão profunda nas operações. Marcas precisam encontrar formas de redistribuir produtos com inteligência, evitando conflitos com canais tradicionais e mantendo coerência com sua estratégia comercial. A gestão de estoque passa a ser uma extensão direta do negócio, e não apenas uma consequência da produção.
Nesse contexto, tecnologia e dados ganham protagonismo. Ferramentas capazes de analisar comportamento de consumo, mapear demanda e direcionar produtos com maior precisão passam a orientar decisões. Ajustes de preço, volume e canal deixam de ser reativos e passam a ser planejados, permitindo maior eficiência na conversão de estoque em receita.
“O desafio não está apenas em vender o excedente, mas em fazer isso com critério. Hoje já é possível direcionar produtos para canais específicos, com controle e sem comprometer a marca. Isso transforma estoque parado em uma alavanca de negócio”, complementa Mencarini.
Mais do que ampliar a distribuição, o movimento aponta para uma operação mais estratégica. Cada decisão de alocação passa a considerar não apenas volume, mas também público, canal e impacto na percepção da marca. O excedente deixa de ser um resíduo e passa a ser parte ativa da estratégia comercial.
A tendência é que a regulamentação europeia influencie outros mercados ao redor do mundo, acelerando a adoção de práticas mais eficientes e sustentáveis. Em um setor historicamente marcado pelo excesso, a nova lógica aponta para um modelo mais inteligente, onde eficiência e posicionamento caminham juntos.
Autora:
Nathalie Páiva


