“Tem dias que a alma te deixa e você fica à sombra do nada.”
Foi com esse pensamento que Ana começou seu dia.
Sentindo-se abandonada pelos seus amigos, ela tentava se reerguer novamente dos escombros de uma alma aflita e sem perspectiva.
Recordou-se que no auge de sua adolescência, era cercada de amigos. Mas tinha uma que se destacava das demais: Ruth.
Ruth não se cansava de declarar seu amor por Ana – fosse por mensagens, por músicas ou pequenos gestos do cotidiano.
Ana se sentia abraçada por aquela amiga que nunca a deixava sentir-se só. Presente, carinhosa, quase devotada. Ana acreditava ter encontrado nela o verdadeiro significado do poema “Alma Gêmea”, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier.
Por mais de trinta anos, Ruth enviou esse poema para Ana. Aquele carinho genuíno a fazia sentir-se acolhida.
Os anos se passaram e Ana resolveu pedir demissão da empresa onde trabalhou por mais de trinta anos. Foi lá que ela selou a amizade com Ruth e esta fazia parte do seu cotidiano, dentro ou fora daquele ambiente.
Ana acreditava que, mesmo longe daquela rotina compartilhada, Ruth permaneceria ao seu lado, mas isso não aconteceu. O que veio foi a distância e a indiferença. Ruth jamais visitou Ana em sua casa, e todo o encanto de Ana começou a desmoronar.
Tentando salvar o que restava, Ana buscou uma reaproximação. Mas o que recebeu foi um “oi” que parecia vir de Marte: seco, vazio, sem vida. O corpo de Ana reagiu como se estivesse aberto, exposto, frágil – suas vísceras à mostra diante de tamanho descaso.
Ana não se cansava de se perguntar onde estava a “alma gêmea de sua alma” e as respostas nunca vieram. O que veio foi o silêncio e o distanciamento que foi sentido amargamente por ela.
Sentindo-se completamente vazia e desassistida, Ana tentava se restabelecer da perda em vida de uma amizade que prometia ser para a vida eterna e, quando percebeu que aquilo era uma utopia, chorou.
O choro do abandono e revolta por ter sido tão ingênua, fazia com que ela sentisse vergonha por ter se doado tanto àquela amizade.
Tudo o que Ana queria era entender os motivos do afastamento, o porquê de ter sido descartada com tanta facilidade por alguém que jurou amá-la a qualquer preço.
Mas, o silêncio também foi uma resposta.
Ruth a isolou por completo: nenhuma ligação ou visita, ou, até mesmo, uma mensagem no WhatsApp. Nada! Nem sinal daquele amor que foi declarado outrora.
Apesar das promessas de amor trocadas entre as duas, Ana descobriu que havia amado sozinha. Tentou preencher o vazio com novas amizades, mas não conseguiu – a sombra do abandono a seguia por onde ela ia. E cada lembrança dos sorrisos e declarações de Ruth fazia com que Ana se sentisse devastada por dentro, como se aquilo tudo tivesse sido apenas um brilho falso de um amor que nunca existiu.
Aos poucos, entre uma lembrança e outra, Ana começou a compreender algo que antes lhe parecia impossível: nem todo amor que se diz eterno sabe permanecer.
E talvez – doía admitir – a dor não estivesse apenas na partida de Ruth, mas na forma como ela própria havia se esquecido de si para caber naquele afeto.
Ainda doía. Ainda sangrava.
Mas, pela primeira vez, Ana percebeu que reconstruir-se não significava esquecer Ruth – e sim, finalmente, voltar para si.


