A cerca das filas

Andar na fila é algo democrático. O primeiro chega antes do segundo porque o quarto chega depois do terceiro. Se fila fosse estática, fila não seria, seria vitrine; mas se fosse veloz, seria esteira: é da natureza da fila transformar horas em eras. Por isso e para isso, fila é ritmo minimamente ordenado. O vácuo e a colisão estão a uma distração de distância.
Há controvérsias. Espíritos anárquicos podem perturbar o pragmatismo da fila, sendo eles as tesouras de dois gumes que os são. Mestres da arte da camuflagem, entre um ou outro passo, devidamente mornos, difamam a santidade das filas para transformá-las em algo maior. Estar na fila é fazer parte do caos.
Só não digo que fila é antinatural porque já a vi na terra e nas paredes. Uma vez procurei pela origem de uma dessas trilhas negras e não fui capaz de a encontrar. Fiquei por horas com meus pés entre a relva em busca do ponto de erupção e não obtive nada além de coceira. O desconforto cravou em mim a seguinte constatação: algumas respostas não valem o esforço de concebê-las.
Mas é incoerente afirmar que as filas são inúteis. Não, jamais. Do supermercado ao front de guerra, vertical ou horizontal, toda fila carrega em cada um de seus elos um objetivo em comum. Cada um é um, enquanto esses são dois. E quando o tempo passa e, finalmente, a vez de dar sentido à espera surge em sua frente, há o convulsionar da satisfação moral.
Ainda assim, esse não é o maior dos prazeres que as filas ofertam. Para além do orgasmo final, há a maceração de um deleite gradativo. Observe o cenário. O indivíduo só consegue entrar na fila pelo pior lado. Quando chega, é imperativo que aguarde e não existe nada na ética que diga o contrário. Ao decorrer do limiar temporal, a situação desse sujeito muda constantemente: a cada passo mais próximo do fim e, a cada pessoa que entra, mais longe do final. Pois é exatamente aqui que a alma mundana se inunda em regozijo. O júbilo de olhar para trás e perceber que, agora, muitos outros estão na situação em que antes se estava, é um entorpecente para os corações banais. Mesmo se não fosse a intenção, as filas são espelhos da sociedade. Fila é legitimação de privilégio.
Não posso deixar de dizer que existem aspectos para além das filas que as tornam mais toleráveis. Existir em fila com alguém que se ama é remédio para o seu mar bravo e solitário. Receber um ato de gentileza é um fenômeno raro porém agradável. O que precisa ser tido como dito é que, no emaranhado de desordem aleatória do mundo, em que tudo acontece ao mesmo tempo em todos os lugares, a fila serve como ópio para produzir uma falsa sensação de ordem. Por isso, andar na fila é máscara sem cordão. Com uma desgastada pirraça, seguram-na com a mão, no intuito de camuflar a humana desgraça.

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