Quando ainda era uma criança, Ana sentiu na pele a dor de ser julgada pelas mães de suas coleguinhas por ser uma menina diferente.
Com olhares ressabiados e cochichos ao pé do ouvido de suas filhas, Ana presenciava aquelas mães puxando suas filhas pelo braço quando estavam na companhia dela, tentando alertar os seus tesouros de que Ana não era uma boa coleguinha por ser muito pobre e destemida.
Sem compreender direito o sentido das palavras rejeição e preconceito, Ana tentava fazer de conta que não entendia aqueles comportamentos, mas, claro, ela compreendia, infelizmente.
Ana tinha o costume de fazer barulho, ou seja, de não deixar passar batida nenhuma injustiça. Lutava pelos seus direitos, principalmente o de ser ouvida. Essa era sua marca registrada desde tenra idade e à medida que o tempo ia passando, cresceu ao longo de sua vida.
As lutas que travava na escola, na rua onde morava, dentro da igreja, a faziam se sentir um patinho feio perante a sociedade.
Dentro do seu ambiente familiar, Ana sentia que era diferente. Odiava algumas brincadeiras que eram feitas, principalmente as sarcásticas, e sempre entrava na defensiva de quem quer que fosse. Era combatente de bullying, mesmo sem saber ao certo que era assim que se chamava.
Mas, o que mais entristecia Ana eram os olhares condenatórios daqueles olhares adultos das mães de suas coleguinhas. Aquelas mulheres insistiam em colocá-la numa cruz sem nem mesmo conhecer a história de Ana.
Ana cresceu num berço de espinhos. Paupérrima, ela buscava ocupar seu tempo com madeiras e bonecas quebradas para passar o tempo. O quintal de sua casa era um verdadeiro pomar, o que acalentava as duras dificuldades financeiras que a família dela enfrentava.
Mas, Ana não sofria por ser pobre e estar naquela condição, mas, sim, por se sentir injustiçada por pessoas que eram tão pobres quanto ela e pela total falta de empatia nos olhares diversos que recebia.
Intimamente, Ana sonhava em dar e ter condições melhores para sua família, mas esse sonho era tão distante quanto a distância da terra para o buraco negro mais próximo.
Mas, ela não se dava por vencida. Tentando combater todos os rótulos recebidos pelas mães daquelas amizades, sonhava em um dia ser digna de respeito e ver nos olhos daquelas mães um olhar enternecido por ela.Essa expectativa se arrastou ao longo dos anos e essas atitudes nunca aconteceram.
Ana cresceu se sentindo injustiçada, pois tinha plena convicção de que todos os seus comportamentos eram em prol de um bem maior: de justiça na sociedade.
Mas, tinha algo em Ana que nenhum olhar que a condenasse poderia dizer o contrário: ela era senhora de seu tempo.
Mesmo tendo consciência e certeza disso, Ana carregava o gosto amargo de se sentir rejeitada em sua infância por aquelas donas de casa que limitavam o seu acesso às suas amizades que era a alegria de Ana.
Aos cinquenta e poucos anos de idade, nada mudou no cenário de Ana. Ela ainda encontrava mães de coleguinhas travestidas de outras pessoas na sociedade por não ter uma graduação tampouco ter tido sucesso profissional como ela almejava ter.
Chorando sozinha, levou alguns anos para Ana sentir que tinha que passar a página desse cenário dolorido e acreditar que, de fato, ela não era aquilo que as pessoas rotularam por tantos anos. Mas, esse dia chegou e, pela primeira vez, Ana deixou de buscar nos outros o olhar que nunca veio. E, no silêncio, reconheceu o que sempre foi: um cisne que ninguém teve coragem de enxergar.


