Pensa numa pessoa rica, doce, gentil, humilde, pau para qualquer obra. Estou certo de que não chega aos pés de Décio Thário, cujo nome não lhe faz justiça.
Caçula de três filhos, tornou-se empresário bem-sucedido, emprega os irmãos e ampara a mãe. Aos 32 anos, tem foco total nos negócios, mas não é celibatário, nem recluso. Vai às festas, viaja, tem amigos, amigas, ficantes, mas nada sério.
Certa noite, a mãe disse que o ama muito e é grata pelo que fez, faz e fará por ela e pelos irmãos, ambos tapados e desorientados, mas está preocupada com ele.
– Por que se preocupa justo comigo, mãe? Eu sei me virar.
– Claro que sabe, meu filho. Você é inteligente, rico e querido por todos.
A mãe explicou que um dia encerrará a temporada terrena. Quem irá cuidar dele e fazer as comidinhas que gosta? Quem o sucederá nos negócios? Já é hora de escolher uma boa moça para se casar. Ela quer ser avó antes de partir desta vida.
Décio Thário pensou muito nas palavras da mãe. Ele vive bem, tem uma casa fantástica, com piscina, sauna e carrões na garagem. Não faltam mulheres em sua vida, mas nunca se decidiu por uma delas. A mãe está certa, pensou. É hora de se casar e gerar descendentes. A depender dos irmãos aloprados, ela nunca será avó.
No dia seguinte, durante o café da manhã, disse à mãe que pensou sobre a vida e que brevemente escolherá uma bela noiva. Garantiu que logo ela verá netinhos correndo pela casa. A mãe quase chorou.
Décio Thário consultou sua agenda, pesquisou as mulheres mais interessantes e visitou seus perfis nas redes sociais. Por fim, telefonou para Marilena e convidou-a para jantar. Disse que tinha algo muito importante a comunicar.
Marilena conhece bem Décio, mas eles só se encontraram em festas e eventos, nunca num jantar romântico. Será mesmo um jantar romântico? Bem, pensou, isso depende mais de mim do que dele. No dia marcado, produziu-se, perfumou-se e chegou ao restaurante na hora exata. Ela sabe que Décio Thário odeia atrasos.
Conversaram, jantaram, dançaram, então ele pegou algo do bolso do blazer e disse: isto é para você. Ela já estava com a mão direita estendida para receber o anel, mas era um envelope, com seu nome e a instrução: abra em casa e guarde segredo.
Morrendo de curiosidade, Marilena abriu o envelope ainda no elevador do prédio onde mora. Na carta, Décio diz que viajará por um mês e na volta pedirá alguém em casamento. Tinha um cheque de R$200.000,00 para gastar como bem entendesse. Quando retornar, jantarão novamente e ele perguntará o que fez com o dinheiro.
Marilena ficou muito feliz. Enquanto pensava em como usar o dinheiro, releu a carta várias vezes. Ele diz que vai pedir alguém em casamento, mas esse “alguém” pode não ser ela. Talvez tenha mais gente nessa parada.
Ela estava certa: tem mesmo. Marilene e Maria Helena também foram convidadas a jantar e receberam envelopes semelhantes. As três se conhecem, desconfiam que têm concorrentes, mas ninguém sabe quem está no páreo. A notícia vazou. Já viram moça jovem guardar segredo? O único segredo era quem mais jantou com o Décio Thário e recebeu um envelope. Os amigos fizeram um bolão com prêmio para quem acertar o nome da escolhida.
Quando Décio Thário retornou da viagem, convidou as três para jantar, uma por vez. Marilena chegou radiante. Usou o dinheiro para fazer preenchimento labial, peeling, Botox e comprou roupas chiques. Se ele a escolher, quer ser a noiva mais linda. Marilene chegou com caixas e sacolas com sapatos e roupas de grife, todas para ele. Ela quer que Décio seja o noivo mais elegante. Maria Helena chegou sorridente, mas nada nas mãos. Na hora de irem embora, abriu a bolsa e deu-lhe um cheque no valor de R$ 298.000,00. Disse que aplicou o dinheiro em derivativos, ações e criptoativos que renderam quase 50% em um mês.
Décio está indeciso: Marilena quer ficar linda para ele, Marilene quer vê-lo elegante e Maria Helena entende tudo de economia e finanças. Qual delas escolher? Após uma semana de muito pensar, Décio Thário escolheu Leninha. Ela não é linda, não tem bom gosto para roupas e não sabe nada de finanças. Mas tem o bumbum mais empinadinho que ele já viu! Além disso, cozinha muito bem.
A beleza um dia se acaba, mas a fome não! Parafraseando Blaise Pascal, o coração tem razões (e estômago também) que a própria razão desconhece. Vida que segue. E viva os noivos!
OBS: Esta é minha 200a crônica neste jornal. 200 semanas consecutivas! Agradeço ao Jornal Tribuna pela oportunidade. Agradeço o apoio dos leitores. Que Deus tenha piedade de suas almas!


