Saber escolher boas frutas e vegetais é um marco de adultez. Nada me faz sentir tão preparada para a vida quanto identificar as excelências do hortifrúti a partir de espessuras, cores, peso. Essa semana, porém, minhas certezas foram abaladas por um casal idoso e uma banca de laranjas.
Já estava com minha sacola pra lá da metade, quando um senhor muito gentil aconselhou: “Não pega essas aí não, minha filha, essas da casca grossa é que são boas.” Antes que eu pudesse pensar numa resposta, a esposa dele, do outro lado da banca, retaliou: “Que besteira. Todo mundo sabe que laranja da casca fina e lisa é que presta.”
Minhas escolhas acompanhavam a ideia da mulher, mas a julgar pelos olhares não muito amigáveis entre o casal, resolvi não tomar partido. A disputa continuou com os dois muito convictos, inserindo aqui e acolá algum argumento doméstico, como: “eu é que faço o suco lá em casa, então eu é que sei.”
Lições de uma banca de laranjas
“Aí é que está”, concluiu o senhor. “Não quero pra suco, quero pra chá.” Nesse momento, a esposa desistiu do que iria dizer e eu me manifestei, curiosa sobre a finalidade apresentada pelo homem. Recebi a explicação detalhada de vários remédios caseiros à base de casca grossa de laranja e seus benefícios.
Tomamos rumos diferentes, o casal agora debatendo a importância de sucos e chás e eu matutando sobre uma verdade elucidada a mim numa banca de laranjas: às vezes a diferença não está entre ser bom ou ruim, mas entre ser bom para objetivos diferentes. Olhei para minha sacola de laranjas de cascas variadas, satisfeita pelo novo conhecimento, mas inquieta com o questionamento: Quantas decisões tomamos na vida, tentando ser suco, quando, na verdade, talvez fôssemos melhores para chá?

