Era terça-feira e eu precisava de um livro. Estava numa meta de só ler clássicos até o fim do ano. Prontamente consultei minha lista de títulos e dirigi-me à biblioteca com a animação de uma criança prestes a ganhar um doce. A eleição da vez foi Lolita. Há anos queria lê-lo, mas sempre outro me roubava a atenção. Pedi ajuda para procurá-lo. Os minutos se passaram e então a senhora do balcão chegou à conclusão: “Olha, não achei e na verdade, acho que nunca vi esse livro por aqui”. Uma ponta de decepção me feriu o estômago. Sentimentos têm essa terrível mania de provocar súbitas gastrites. Perseverei mais um pouco, em vão. Decidi pegar um outro, que também estava na minha fila de leitura, mas que, pela frustração da imensa vontade anterior, não parecia tão empolgante.
Biblioteca como refúgio
No dia seguinte, ouvi (a partir de um descuido) algumas frases maldosas ditas por um determinado círculo de confiança. Não sei se foi uma sensibilidade já instalada em mim ou o choque da decepção, mas senti vontade de chorar, seguida pela vergonha da vontade. Usei a solução dos frouxos: Fugi. Guiada mais pelas pernas que pela cabeça, não percebi para onde estava indo, até chegar à biblioteca. Mais precisamente, à penúltima prateleira. Finalmente estava segura, sozinha e em silêncio. Desabei no chão, encolhida entre as duas muralhas de livros.
Meu ceticismo conversava comigo, como uma luz consoladora num quarto escuro. Protegendo-me do bicho papão das ilusões doces. Uma enxaqueca ameaçou. Olhei para baixo e desejei ir para bem longe. Apesar da chateação, já me sentia melhor por poder ceder aos meus sentimentos sem plateia, apenas na presença dos livros. Cada um com suas histórias, as mais diversas e possíveis histórias. Eu sabia que ali não seria novidade. Não havia nada que eu pudesse chorar que os livros já não soubessem. E então eu olhei para o lado. E vi, logo ali, algo que me fez sorrir: Lolita. Fiquei emocionada pelo presente daquele lugar inanimado, que com paredes, ferro e papel, me acolheu com mais compreensão e amor que muito possuidor de coração.

