A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS NO SISTEMA PRISIONAL DO RIO GRANDE DO SUL

RESUMO

O presente artigo versou sobre a importância dos Cientistas Sociais no cotidiano do Sistema Prisional do RS. Por
meio de uma pesquisa bibliográfica criteriosa, associada a dados e informações recentes oriundos da Polícia
Penal, foi possível verificar de que formas os profissionais das Ciências Sociais puderam contribuir no processo
de recuperação das pessoas privadas de liberdade e egressos do Sistema Penal. O estudo demonstrou que para
elaboração de políticas penais mais eficazes e humanas é necessária uma visão altamente qualificada, com uma
perspectiva multifacetada capaz de analisar aspectos culturais, econômicos, sociais e educacionais, direcionados
a vida intramuros e principalmente pós cárcere. Ademais, o artigo contribuiu com dados estatísticos recentes
sobre a população privada de liberdade, e evidenciou os projetos criados por pesquisadores sociais e a sua
conexão com a ressocialização

Palavras-chave: Ciências Sociais. Sistema Prisional. Ressocialização.

Abstract


This article examined the significance of Social Scientists in the daily operations of the Rio Grande do Sul
Prison System. Through a comprehensive bibliographic review, complemented by recent data and information
obtained from the Penal Police, it was possible to identify the ways in which professionals in Social Sciences
have contributed to the rehabilitation process of incarcerated individuals and ex-offenders within the penal
system. The study demonstrated that the formulation of more effective and humane penal policies requires a
highly qualified, multifaceted perspective capable of analyzing cultural, economic, social, and educational
dimensions—both within the prison environment and, critically, post-release. Additionally, the article provided
recent statistical data on the incarcerated population and highlighted projects developed by social researchers,
emphasizing their connection to social reintegration efforts.
Keywords: Social Sciences. Prison System. Social Reintegration

Diante de uma realidade complexa e intrincada, o sistema penitenciário do Rio Grande
do Sul, revelou a sua fragilidade em relação ao perfil do seu efetivo funcional e como
resultado os baixos índices de recuperação de egressos. A população carcerária dos dias
atuais, exige profissionais completos capazes de lidar com adversidades diárias e que estejam
aptos a propor alternativas para solucionar problemas. O perfil tradicional, focado nas
questões jurídicas e de segurança, tornou-se insuficiente e aos poucos vem sendo
complementado por técnicos multidisciplinares focados em reestabelecer a vida social do
apenado. A infraestrutura deficiente, a superlotação, a violência física e psicológica, a
negligência da saúde e a fragilidade do processo de reingresso social são alguns dos desafios
diários que o Cientista Social deve estar preparado para enfrentar. Neste artigo, foi destacado
as singularidades dos Analistas Sociais, enfatizando a capacidade dos mesmos em atuar como
mediadores entre os encarcerados e a sociedade, de interpretar as causas sociais da
criminalidade e de propor alternativas que viabilizem a ressocialização

O processo de ressocialização, conceito fundamental na recuperação do apenado
conforme a Lei 7.210 (BRASIL,1984), tem avançado lentamente no RS. O alto índice de
reincidência sinaliza que o modelo adotado pelas políticas penais atuais precisa ser repensado.
A inserção de uma abordagem mais humanizada, a inclusão de conhecimentos
individualizados, que considerem o histórico de vida de cada apenado, e a influência do
ambiente social no comportamento desviante são algumas das alternativas viáveis para
reverter a situação. A esse respeito, as Ciências Sociais, podem contribuir através de sua
robusta estrutura teórica e ampla metodologia, fornecendo variadas opções de ferramentas
para realizar estudos dentro e fora do cárcere, analisar as conexões de suporte dos
encarcerados, e as barreiras financeiras e sociais que complicam a recondução ao convívio em
sociedade

Neste artigo, foi mostrado a importância dos Pesquisadores Sociais, assim como as
benfeitorias que eles podem agregar ao contexto do sistema prisional gaúcho. Objetivou-se
destacar a atuação desses profissionais, seja nas investigações iniciais, nas avaliações de
resultados, no planejamento de ações ou na colaboração dentro de equipes multidisciplinares
sempre visando o êxito da ressocialização.

METODOLOGIA

A presente pesquisa, fundamentou-se em dois momentos inter-relacionados.
Inicialmente, foi realizado uma dinâmica que integra a revisão bibliográfica e a análise
documental, proporcionando uma base teórica sólida. Na sequência, foram prospectadas
informações nos sistemas de registro internos da Polícia Penal, na qual atuo como servidor,
seguidas de interações diretas e entrevistas com outros servidores e apenados.

Neste contexto, foram apresentados dados atualizados sobre o quantitativo da massa
carcerária do Estado e disponibilizadas informações sobre trabalho e educação prisional.
Além disso, também foram elencadas iniciativas de sucesso, planejadas e aplicadas por
Analistas Sociais, bem como suas repercussões nos estabelecimentos prisionais e sobre seus
ocupantes. Diante do exposto, acredita-se que reconhecer e expandir o desempenho dos
profissionais é indubitável para avançarmos no processo de ressocialização.

PANORAMA SOCIOLÓGICO DO SISTEMA PRISIONAL DO RS

A realidade atual do sistema prisional do Rio Grande do Sul inspira cuidados urgentes,
a Polícia Penal ainda vem recuperando-se da catástrofe ambiental que afetou o RS no ano de
2024, e atingiu diversas unidades prisionais, impactando diretamente a estrutura física,
organizacional e humana da instituição. Medidas emergenciais foram estabelecidas para tentar
mitigar os problemas enfrentados e oferecer o mínimo exigido pela Lei de Execuções Penais
aos apenados e servidores.

Conforme informações da Polícia Penal do RS (2025), “a população carcerária do
Estado está em torno de 49.6 mil apenados”, em razão deste acréscimo de pessoas privadas de
liberdade, existem algumas casas prisionais, que já ultrapassaram a sua capacidade de
engenharia afetando diretamente a qualidade de vida de seus ocupantes. Manter pessoas no
cárcere sem as mínimas condições humanas exigidas, pode desencadear revoltas nos presos e
compromete toda a dinâmica de um estabelecimento prisional

Polícia Penal, 2025.

Da análise do gráfico 1, é possível inferir que a população carcerária do RS vem
aumentando nos últimos anos, corroborando a informação fornecida pela Polícia Penal. Este
crescimento pode ser atribuído a uma série de elementos, tais como: o aumento da prática de
crimes, a precariedade da estrutura física com algumas construções antigas e sem manutenção
adequada, limitações nos atendimentos médicos e psicológicos nos estabelecimentos, a
acomodação de apenados em locais insalubres, o aumento das prisões provisórias e outros
tantos elementos críticos que acabam gerando insatisfações e revoltas nos reclusos.

Após prospectar dados verificou-se que no sistema carcerário do RS “a maioria da
população privada de liberdade é composta por homens com idade de até 45 anos, sem ensino
médio completo, oriundos de contextos socioeconômicos frágeis” (POLLACCHINNI, 2024).

O padrão humano identificado nos estabelecimentos prisionais do Estado, é reflexo de
uma sociedade desigual com oportunidades restritas aos menos favorecidos e também a
seletividade do crime organizado, que atrai os menos favorecidos transformando-os em
criminosos. As relações entre as organizações criminosas, as disputas de poder intramuros e a
influência do crime organizado são pontos importantes a serem estudados pelos Sociólogos,
antes de traçar qualquer ação estratégica visando a melhoria da realidade prisional.

Além disso, o Cientista Social precisa entender que as casas prisionais têm uma
realidade bastante complexa, com sua cultura própria, regulamentos e instruções internas,
hierarquias informais, conexões sociais, tudo exercendo grande influência sobre o
comportamento dos presos e em alguns casos influenciando o meio externo. Entender o
funcionamento das mesmas é imprescindível para estabelecer metas de trabalho eficazes e
definir práticas intervencionistas mais humanizadas.

CIENTISTAS SOCIAIS NA RESSOCIALIZAÇÃO

Os Técnicos da Área Social, munidos de seu embasamento teórico e metodológico
diversificado, contribuem com ações expressivas nas mais variadas etapas do processo de
ressocialização do preso. A abrangência das suas ações incorpora: a pesquisa individual de
cada caso, o diagnóstico, a elaboração e implementação do programa de intervenção, a
monitoração contínua para ajustes e atualizações, a avaliação e melhoria, além da participação
em equipes multidisciplinares e da produção de conhecimento relevante para a formulação de
políticas públicas.

PESQUISA E DIAGNÓSTICO

Após décadas de observação e experimentos malfadados, concluiu-se que, para se
obter abordagens eficazes e sucesso na recuperação dos reclusos, é fundamental que as
abordagens e intervenções se baseiem no diagnóstico de uma pesquisa social. Através dela, os
Cientistas conseguem identificar as necessidades específicas do grupo, percebem a forma
como o ambiente externo influencia cada indivíduo, mensuraram as relações por trás das
grades e muros e planejam como ultrapassar os obstáculos no pós-encarceramento.
Atualmente, no sistema prisional do Estado destacam-se pesquisas que investigam:

A repercussão de programas educacionais e profissionalizantes: analisando a
efetividade dessas iniciativas na aquisição de habilidades e na mudança de concepção dos
presos.

As experiências humanas pós-cárcere: analisando as dificuldades e os métodos
que os egressos enfrentam na busca para reestabelecer trabalho, domicílio e o resgate de laços
familiares.


A interferência de gênero no sistema prisional: prospectando as especificidades
da vivência masculina e feminina no cárcere e suas relações com os estabelecimentos
prisionais

ELABORAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DE PROGRAMAS DE INTERVENÇÃO

A gestão da Polícia Penal, determinada a melhorar os índices de ressocialização
prisional, vem desenvolvendo e também aplicando uma série de ações desenvolvidas por
Cientistas Sociais e outros técnicos superiores penitenciários, tudo sob a supervisão atenta do
Departamento de Tratamento Penal (DTP) que segue as orientações das ações e programas do
Ministério da Justiça e Segurança Pública. Estas ações buscam reverter a reincidência
criminal, transformando reclusos e egressos em indivíduos reintegrados a sociedade, para
viabilizar essas práticas.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (2025), elencou três áreas
prioritárias para concentrar todos seus esforços: trabalho, educação e reinserção
social, na sequência são listados os programas versam sobre o tema:
1.
Empreender Social: programa que incentiva a geração de renda e a inserção
no mercado de trabalho de pessoas privadas de liberdade e egressos, através de
parcerias com empresas e organizações.
2.
Resgata: programa reconhecido com o selo nacional de responsabilidade
social pelo trabalho no sistema prisional, que busca ampliar a oferta de vagas de
trabalho para a população prisional, facilitando a reintegração social.
3.
Programa bola na rede: projeto esportivo que busca promover a inserção
social e a formação de esportistas dentro do sistema prisional, com a criação de
centros esportivos e oficinas.
4.
Programa universitário do amanhã: programa que oferece acesso a cursos
superiores para pessoas privadas de liberdade, contribuindo para a sua formação
profissional e social.
5.
Remição de pena por práticas sociais: a Polícia Penal regulamenta a
remição de pena por meio de atividades sociais educativas, como leitura, cultura e
esportes, permitindo que as pessoas privadas de liberdade reduzam suas penas por
meio de ações que promovam a reinserção.
6.
Escritórios sociais: espaços que acolhem e orientam pessoas que estão
prestes a deixar o sistema prisional, encaminhando-as para os serviços públicos e
políticas públicas existentes, facilitando a reinserção social.

7.
Parcerias com a sociedade civil: a Polícia Penal em parceria com ONGs,
universidades e outras instituições têm desenvolvido programas e projetos que
promovem a reinserção social.

Diante do exposto, pode se afirmar que a atuação dos Pesquisadores Sociais é de
extrema importância em equipes multidisciplinares, o compartilhamento de conhecimento de
variados técnicos agrega benefícios no planejamento de ações, tomada de decisões e até
mesmo na comunicação da equipe, fortalecendo o grupo e ampliando os saberes dos
profissionais.

Um olhar interdisciplinar propicia uma avaliação mais criteriosa sobre a situação
global dos encarcerados, agrega conhecimento ao propor diretrizes que guiam as intervenções
do grupo e também auxilia nos planos de acompanhamento individualizado. A presença de
Cientistas Sociais em Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPs) e em Centros de Referência
em Assistência Social (CRAS) vinculados ao sistema prisional tem se mostrado crucial para a
articulação de ações que visam a reintegração social.

CONHECIMENTO E FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

A concepção de políticas públicas que atendam essa parte específica da população
gaúcha é um processo complexo. Torná-las mais eficazes e humanizadas depende diretamente
da produção de conhecimento dos Cientistas Sociais que atuam no meio prisional. A produção
de conhecimento que provém desses estudiosos pode fundamentar a criação de novas leis,
implementar programas de desenvolvimento e até mesmo atrair mais investimentos para os
reclusos e seus familiares.

Esta mudança de paradigma pode ser observada com o crescente número de pesquisas
e debates sobre a descriminalização de algumas condutas, a criação de novas alternativas
penais, a demanda ascendente por programas de ressocialização e o trabalho de recuperação
pessoal que os especialistas sociais têm desenvolvido com os egressos do sistema.

O trabalho do Sociólogo pode ser observado em diversos segmentos quando se trata
de ressocialização, tudo vai depender de qual característica humana precisa ser melhorada
para reintegração do indivíduo privado de liberdade. Projetos profissionalizantes,
educacionais ou que promovam o autoconhecimento são os mais comuns e normalmente são
elaborados por equipes técnicas compostas por: sociólogos, pedagogos, psicólogos,
advogados e outros profissionais que possam colaborar com a definição de estratégias para
instruir e qualificar essas pessoas que em algum momento deixaram o cárcere.

Além da qualificação humana, o Cientista Social deve estar atento as necessidades do
mercado de trabalho externo e principalmente a evolução educacional, somente desta forma as
diretrizes dos métodos de ensino e de capacitação que foram planejados poderão ter maiores
chances de sucesso. As ofertas de emprego, as possibilidades de formação, a conquista da casa
própria e a formação de família tornam-se realidades mais palpáveis, contribuindo para
redução da marginalização e reduzindo a probabilidade de reincidência criminal.

O TRABALHO PRISIONAL

A ocupação em atividades produtivas dentro dos estabelecimentos prisionais é
fundamental no processo de recuperação da população reclusa, sem ela, seria quase
impossível acabar com a recidiva. O labor intramuros tem função educativa e produtiva, além
de ser uma oportunidade de gerar renda, aprender novas funções, ajudar na redução da pena e
resgatar a dignidade humana. O trabalho prisional é uma ferramenta poderosa quando o
assunto é ressocialização, por este motivo é inconcebível ter detentos parados, vendo o tempo
passar, em vez de estar se preparando, seja estudando ou trabalhando, otimizando o tempo de
pena para mudar o rumo da sua história.

A Polícia Penal através do Departamento de Tratamento Penal tem investido pesado
na busca por parceiros que acreditam nos benefícios da qualificação profissional,
remuneração digna e fortalecimento da autoestima dos envolvidos. Conforme dados do
Demonstrativo Laboral fornecidos pelo Departamento de Tratamento Penal da Polícia Penal
(2024), “o número de pessoas privadas de liberdade em atividades de trabalho em dezembro
de 2024 foi de 13.873 (treze mil, oitocentos e setenta e três), distribuídos da seguinte forma”:

Trabalho em ligas laborais para remição de pena: 7.877
Trabalho em termos de cooperação: 1.910
Trabalho externo com CTPS assinada: 1.115
Trabalho externo autônomo: 1.885
Artesanato: 1.08

Polícia Penal RS 2025.

A RESSOCIALIZAÇÃO E A EDUCAÇÃO PRISIONAL

A educação nos estabelecimentos prisionais é muito mais que uma oportunidade para
que as pessoas privadas de liberdade conquistem a sua independência intelectual, ela auxilia
na reconquista da autoestima e desenvolve o hábito por aprender coisas novas. O aprendizado
propicia uma nova perspectiva de vida, na qual os detentos tornam-se aptos a se reestabelecer
em sociedade, além de auxiliar na redução de suas penas. A instrução e a capacitação no
ambiente prisional otimizam o tempo das pessoas reclusas interessadas em recomeçar suas
vidas, promovendo a ressocialização através de novas formas de pensar e agir.

Ser alfabetizado, concluir o ensino fundamental e médio, ser capacitado
profissionalmente e até mesmo ingressar no ensino superior, tornam-se realidades possíveis
quando os Cientistas Sociais conseguem, por meio das pesquisas sociais, diagnosticar o perfil
dos ocupantes e do estabelecimento prisional. A partir daí a educação transforma-se numa
poderosa ferramenta para transformar presos comuns em pessoas dispostas a serem
recuperadas e reintegradas, à sociedade, aumentando suas chances de êxito. Para alcançar esses resultados a educação deve ter um acompanhamento individual rigoroso. Além do mais,
as atividades educacionais dentro de unidades carcerárias podem proporcionar momentos de
autoanalise, nas quais o apenado questiona suas atitudes delinquentes, tenta ressignificar seus
valores ou ainda desenvolve um pensamento crítico que o levam a acreditar numa vida longe
do crime vivendo em harmonia com a sociedade.

Polícia Penal RS,2025.

Segundo o Departamento de Tratamento Penal (2024), “houve um aumento do número
de espaços de educação formal e do número de pessoas privadas de liberdade estudando,
representando um acréscimo de quase 13,4% com relação ao ano de 2023”. O ano de 2024,
foi uma surpresa em termos de adesão de detentos a educação formal, pois as metas traçadas
no ano anterior foram superadas, tanto para o número de inscritos quanto para a quantidade de
estabelecimentos participantes em ambos os Exames Nacionais.

VÍNCULOS SOCIAIS E A RESSOCIALIZAÇÃO

Outro ponto que merece bastante destaque no trabalho dos Pesquisadores Sociais, e
que faz toda a diferença na adesão do programa de ressocialização, é reconstrução dos
vínculos com a família e comunidade. Este tipo de conexão precisa ser reestabelecida, já que por meio delas os analistas desenvolvem táticas para restaurar os laços familiares, afastando o
egresso do risco social. Os profissionais reconhecem que a presença da família e dos amigos
funciona como uma rede de proteção, que proporciona segurança emocional e muitas vezes
financeira para os libertados.

Os Sociólogos utilizam táticas diversas como: grupos de apoio para auxiliar na
resolução de conflitos familiares, reuniões terapêuticas para ajudar na transição do meio
carcerário para casa, programas que tratam sobre a violência de gênero e sexualidade, amparo
na recolocação profissional, incentivo no retorno a vida estudantil, tudo para desconstruir
hábitos e comportamentos antigos e evitar que a pessoa volte a cometer crimes.

Por meio de atividades em grupo, discussões e exercícios de reflexão, os participantes
são estimulados a examinar suas histórias pessoais, reconhecer os elementos que
influenciaram a prática de delitos e criar maneiras de se relacionar fundamentadas no respeito
e na ausência de violência. A abordagem da Sociologia é essencial para entender as
construções sociais relacionadas a gênero e violência, fornecendo instrumentos conceituais
para modificar comportamentos e fomentar uma cultura de paz tanto dentro quanto fora do
ambiente prisional.

A exemplo de programas focados na reflexão sobre violência e gênero, pode-se
ressaltar o trabalho desenvolvido pela Divisão de Atenção às Mulheres e Grupos Específicos
(DIAMGE), que atua frente as políticas e garantias de direitos humanos voltadas aos grupos
vulnerabilizados do sistema prisional do RS, de forma específica, aprimorando metodologias
de acompanhamento, diagnóstico e planejamentos voltados à adequação de tratamento penal
às mulheres, idosos, negros, indígenas, pessoas com deficiência, estrangeiros e população
LGBTQIA+ privados de liberdade (POLÍCIA PENAL,2024).

A DIAMGE realiza a gestão transversal, dentro da Polícia Penal, das políticas
específicas para proteção de grupos minoritários, em cunho de ações, projetos, estudos e
políticas voltados à promoção e ao respeito a diversidade no âmbito prisional.

Esses grupos correspondem à aproximadamente 40% da população privada
de liberdade no RS. Conforme dados de dezembro de 2024, registra-se
aproximadamente 15,6 mil pessoas autodeclaradas pretas ou pardas, 2,9 mil
mulheres privadas de liberdade, 1,6 mil idosos privados de liberdade, mais de 700
pessoas com deficiências privadas de liberdade, 380 pessoas autodeclaradas
LGBTQI+, mais de 130 pessoas identificadas indígenas e por fim 200 pessoas
estrangeiras (POLÍCIA PENAL, 2024).

Dentre as conquistas alcançadas para os grupos específicos pode-se citar:


Política nacional de atenção a mulheres em situação de privação de liberdade e
egressas do sistema prisional – PNAMPE;


Instrução normativa Nº003/2023, que contempla toda pessoa privada de
liberdade mãe/pai que comprovadamente se identifique como principal responsável por
criança menor de 12 anos ou pessoa privada de liberdade, que comprovadamente se
identifique como principal responsável por criança menor de 06 anos e/ou deficiente;


Programa primeira infância melhor (PIM) no contexto prisional do RS, que
teve como meta a humanização dos espaços de conivência familiar dos Estabelecimentos
Prisionais;

Inclusão de mulheres em atividades de educação, trabalho, acompanhamento
de saúde, e atividades que promovam inclusão e remição de pena;


Portaria conjunta SEAPEN/Polícia Penal n. 005/2021, que visa garantir direitos
e atender as políticas nacionais e internacionais, bem como a legislação vigente de proteção à
população LGBTI+;


Comitê gestor atenção à população LGBTI+, pelo decreto nº57.334 de
nov/2023, tendo como a finalidade de elaborar, monitorar e de implementar a política penal de
atenção à população LGBTI+, no âmbito do sistema prisional do Estado.


Acordo de cooperação, com a OSC “SOMOS”, que proporciona capacitações
técnicas em matéria de gênero e sexualidade para servidores penitenciários e oficina de
direitos humanos para população LGBTI+;


Resolução CNJ nº 287/19 no sistema prisional RS, o qual visa instituir o fluxo
de identificação e acompanhamento de indígenas privados de liberdade e monitorar ações de
tratamento penal voltadas à efetivação da Resolução CNJ n° 287/19 do sistema prisional
gaúcho;

DESAFIOS E POTENCIALIDADES DA ATUAÇÃO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

O avanço das Ciências Sociais no contexto do atual do sistema penitenciário do RS
ainda pode ser considerado inexpressivo, os obstáculos enfrentados pelos profissionais da área
ainda são muitos, apesar do crescente reconhecimento da importância dos Cientistas Sociais.
A escassez de investimentos, a resistência interna, a descrença dos colegas Institucionais, a
hostilidade encontrada em certos ambientes e a rejeição a programas e ações sociais são
alguns dos impasses que precisam ser superados. Ademais, deve-se considerar a intricada
realidade do sistema prisional, que diariamente apresenta situações inusitadas, que exigem
decisões emergenciais por vezes, negligenciando análises mais aprofundadas e ações a longo
prazo que as Ciências Sociais disponibilizam.

Todavia, o campo de atuação dos profissionais das Ciências Sociais são amplos e
heterogêneos. Seu domínio para investigar as origens sociais da criminalidade, compreender
as relações de poder e propor intervenções que levem em consideração a singularidade das
trajetórias individuais e os contextos sociais constitui uma via promissora para a construção
de um sistema penitenciário mais igualitário e eficiente na promoção da ressocialização. A
integração entre o meio acadêmico, o poder público e a sociedade civil revela-se primordial
para potencializar a contribuição das Ciências Sociais e para transformar o sistema prisional
em um espaço propício à reconstrução de vidas e à inclusão social. revela-se primordial para
potencializar a contribuição da Sociologia e para transformar o sistema prisional em um
espaço propício à reconstrução de vidas e à inclusão social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo trouxe uma reflexão clara e sensata sobre a importância das Ciências
Sociais no entendimento e na atuação dentro do sistema prisional do Rio Grande do Sul. A
experiência e o conhecimento desses profissionais são fundamentais para captar as nuances
sociais, culturais e econômicas que permeiam a rotina nas prisões e o período após a
liberdade. Essas informações são essenciais para que possamos criar políticas penais mais
humanas, justas e que realmente façam a diferença na vida das pessoas. Os exemplos de
projetos e os dados apresentados mostram, de forma concreta, o papel ativo desses
especialistas na promoção da reintegração social e na busca por reduzir a reincidência,
contribuindo assim para uma sociedade mais equilibrada, mais compreensiva e mais
harmoniosa.

Para avançarmos nesse caminho, é essencial superar os obstáculos que ainda existem e
ampliar o papel dos profissionais de Serviço Social no sistema prisional do Rio Grande do
Sul. Isso significa investir continuamente em estudos e pesquisas, valorizar e reconhecer o
trabalho desses especialistas, além de criar espaços que permitam a sua participação em todas
as fases do processo de execução penal. Acreditamos que incluir a perspectiva das Análises
Sociais não é apenas uma opção desejável, mas uma necessidade fundamental para
construirmos um futuro onde justiça e reintegração social caminhem juntas. Dessa forma,
contribuímos para uma sociedade mais justa, segura e acolhedora para todos.

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