Tudo que sei daquela simpática senhora chamava-se Maria.
Sua coluna estava dobrada como um arco pronto para lançar a flecha. Nas mãos levava duas sacolas de sonhos. Carregava alimentos? Quem sabe.
Olhou-me com um olhar de menina, desses que ainda guardam uma energia irresistível. Ofereci-me para levar seu fardo. Não que tivesse pedido, nem sequer reclamara; estava serena.
— Para onde vai, Dona Maria? — perguntei.
— Para a lanchonete. Quero tomar um copo de leite.
Fiquei feliz em acompanhá-la. Meu coração queria retribuir aquele sorriso.
Mas a lanchonete estava fechada.
Dona Maria, linda como uma flor do campo, talvez com mais de setenta primaveras, encostou-se na parede. Seu olhar calmo parecia decidir, silenciosamente, naquele labirinto de ruas, qual direção seguir.
Continuou sorrindo, deixando o deleite do leite para outro dia.
E eu fiquei feliz por ter conhecido a bravura de uma guerreira que luta sem perder a ternura.
Sob um manto de estrelas, Dona Maria certamente continuará caminhando — invisível aos nossos olhos — por essas mesmas ruas que pisamos noite e dia.
Talvez essa seja a verdadeira grandeza de algumas mulheres.


