Por Rogério Baldauf, Diretor Superintendente da Schmersal no Brasil
Os dados mais recentes sobre o mercado de trabalho no Brasil acendem um sinal de alerta importante para empresas de todos os setores. De acordo com a 3ª edição do estudo Engaja S/A, realizado pela Flash em parceria com a FGV-EAESP, seis em cada dez brasileiros afirmaram que, em 2025, pensaram em pedir demissão com alguma frequência. O levantamento revela ainda que apenas 39% dos profissionais se declaram engajados em suas atividades, uma queda de cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Mais do que números isolados, esses indicadores apontam para uma tendência estrutural: o distanciamento emocional entre os gestores das empresas e os demais colaboradores. Em um cenário marcado por transformações aceleradas, novas expectativas profissionais e maior valorização do bem-estar, o engajamento deixou de ser consequência automática do emprego formal. Ele precisa ser construído de forma consistente, contínua e genuína — pelo menos é assim que eu enxergo ao longo da minha carreira.
Esse contexto nos convida a uma reflexão profunda sobre como as organizações estão cuidando das pessoas que fazem seus negócios acontecerem. Salários e benefícios continuam sendo relevantes, claro, mas já não são suficientes para garantir pertencimento, motivação e retenção. O profissional de hoje busca propósito, autonomia, escuta ativa e oportunidades reais de desenvolvimento.
Na prática, em minha jornada como gestor, aprendi que o engajamento começa pela abertura ao diálogo. Manter as portas abertas para que os colaboradores possam propor melhorias, compartilhar percepções e fazer críticas construtivas é um pilar da cultura da empresa da qual faço parte. Essa postura fortalece a confiança mútua e cria um ambiente no qual as pessoas se sentem respeitadas e ouvidas. Além disso, buscamos adotar uma política concreta de bem-estar e priorizar a valorização dos papéis exercidos por cada profissional, mais do que a rigidez de cargos e hierarquias.
Os resultados dessas iniciativas se refletem diretamente em indicadores de retenção. Em 2024, alcançamos um índice de 99,71% e, em 2025, mantivemos um patamar igualmente elevado, com 99,57%. Ainda assim, temos plena consciência de que o mundo do trabalho está em constante evolução, o que exige das empresas uma postura permanente de aprendizado e adaptação.
Nesse sentido, ampliar as oportunidades internas de crescimento é uma estratégia essencial. Profissionais que enxergam perspectivas claras de desenvolvimento tendem a se sentir mais valorizados, comprometidos e engajados. Por isso, fortalecemos as ações ligadas ao Programa de Desenvolvimento Individual (PDI) e ampliamos o escopo da educação corporativa, com investimentos contínuos em capacitação técnica, comportamental e no desenvolvimento de lideranças.
Acredito que engajar não é apenas reter, mas criar condições para que as pessoas evoluam junto com a organização. Isso passa por atenção genuína à equipe, fortalecimento das relações de confiança, estímulo ao aprendizado contínuo e promoção de um ambiente saudável, seguro e colaborativo.
Em um momento em que tantos profissionais consideram mudar de emprego, cabe às empresas refletirem sobre o papel que desejam exercer na vida de seus colaboradores neste novo mundo do trabalho. O engajamento não se impõe — ele se constrói. E essa construção exige escuta, coerência, investimento e, sobretudo, humanidade.


