Era uma manhã de segunda-feira quando Ana foi para a varanda de sua casa e, extremamente pensativa, sentou-se na rede, ao som de Chopin, pensando quando tinha sido a última vez em que ela ousara sonhar.
Algo, porém, tirou sua atenção: de longe, Ana percebeu um movimento lento próximo ao portão, quase imperceptível. Ainda assim, voltou sua atenção para os próprios pensamentos, tentando ignorar o que acontecia dentro de sua própria casa.
Naquela manhã, Ana tinha acordado nostálgica de momentos que ainda não tinham sido concretizados.
Por mais que aparentasse estar bem, ela tinha urgência de viver com mais qualidade de vida; de viajar; de sonhar. Este último era o que ela mais almejava, pois havia esquecido o que era isso.
Já com seus cinquenta e poucos anos e com tantas tribulações, Ana havia se esquecido do real significado da palavra sonhar.
Recordando-se da última conversa que tivera com sua filha mais velha, percebeu que não tinha liberdade para isso, uma vez que todos os projetos que compartilhava eram vistos como se ela estivesse sempre sob uma suposta impulsividade associada a um diagnóstico que lhe fora dado.
Quando decidia dividir seus projetos – que eram, na verdade, seus sonhos – era imediatamente podada. Sentia-se repreendida porque, aos olhos dos outros, tudo o que vinha dela era tratado como consequência daquele rótulo.
Ana estava cansada de receber marcas, sanções em relação aos seus anseios. Era como se tivesse sido condenada a não poder sonhar ou fazer planos, porque sempre havia alguém para trazê-la de volta à realidade em que fora diagnosticada.
Cabisbaixa e sem força para lutar contra tudo e todos, levantou-se devagar de onde estava sentada e foi ver o que se mexia atrás dos arbustos de seu quintal e se deparou com um rato agonizando e pronto para dar seu último suspiro.
Ao invés de pôr fim à angústia daquele roedor, preferiu assistir, de camarote, à dor e à luta que ele travava para viver.
Ao contrário do que se possa imaginar, ela não sentiu nojo daquele ser, mas passou a enxergar nele a dor e o sofrimento que havia naquela cena e imaginou-se vivendo a mesma situação que ele.
Era isso que ela sentia por ver seus sonhos sendo descartados: morrendo devagar pelo veneno que lhe era dado todas as vezes em que ousava sonhar.
Ana estava morrendo como aquele roedor – lentamente, quase que imperceptivelmente aos olhos dos outros. Ninguém percebia o quanto a matavam todas as vezes em que a repreendiam por sonhar; o quanto desejava viver seus projetos, fossem pequenos ou grandiosos; o quanto a dilaceravam por condená-la a um CID que ela tentava explicar que não a definia.
E quando Ana percebeu que não conseguia remar contra a correnteza das certezas alheias sobre quem ela era, notou que sua vida se comparava à daquele roedor. Observando que o rato havia parado de se contorcer, sentiu um alívio por ele não estar mais entre os vivos.
A morte daquele roedor a fez repensar a forma como não queria o mesmo destino para si. Mas, para isso acontecer, ela tinha que desacreditar dos conceitos que os outros tinham sobre ela. Ana queria e podia ir além.
Pensando assim, voltou lentamente para a rede, revendo cada momento que deixara de viver por acreditar que os outros tinham poder sobre ela e, pela primeira vez em muito tempo, Ana decidiu que ninguém mais teria. Definitivamente, estava decidida a pôr fim a isso – para nunca mais sentir pena de si mesma, nem permitir que a impedissem de ir além dos próprios sonhos.


