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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Justiça seletiva: quando o sobrenome vale mais que a vida

A cada vez que um crime brutal envolve sobrenomes conhecidos, patrimônio visível e relações bem posicionadas, a engrenagem da Justiça brasileira começa a ranger de um jeito estranho. Não é um ranger de falha. É um ajuste fino. Um movimento calculado para proteger quem sempre esteve do lado certo da proteção.

Dizem que o debate é sobre não expor adolescentes. Mas essa frase, repetida como um mantra jurídico, soa vazia quando confrontada com a prática cotidiana do país. Basta abrir os noticiários policiais, especialmente aqueles que cobrem periferias, para encontrar rostos borrados de forma displicente, nomes vazados em grupos de WhatsApp, endereços revelados, mães constrangidas diante de câmeras. A infância, ali, nunca foi um argumento convincente.

A lei que protege crianças e adolescentes nasceu para conter o arbítrio do Estado, não para servir de biombo moral à impunidade seletiva. O Estatuto da Criança e do Adolescente não foi criado para distinguir quem merece cuidado e quem merece exposição com base na renda familiar. Ainda assim, é exatamente isso que acontece.

Quando jovens pobres cometem infrações, o discurso público rapidamente os transforma em monstros precoces, em ameaças sociais que precisam ser neutralizadas. Dados reiterados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o sistema socioeducativo é ocupado majoritariamente por jovens negros, periféricos e de baixa escolaridade. A eles, raramente se concede o benefício da dúvida, da contextualização ou do silêncio respeitoso.

Mas quando os envolvidos pertencem a famílias ricas, o vocabulário muda. O crime vira episódio. A violência extrema vira erro. A tortura vira excesso. O assassinato de um ser indefeso, como no caso do Orelha, é diluído em notas técnicas, despachos cautelosos e discursos sobre futuro promissor interrompido, desde que esse futuro seja o dos autores, nunca o da vítima.

Um deles completa 18 anos em dias. A proximidade da maioridade vira argumento, como se a crueldade tivesse calendário, como se a dor tivesse prazo de validade. A brutalidade não foi menor porque houve certidão de nascimento envolvida. Não foi menos crime porque os algozes tinham acesso a bons colégios, viagens internacionais e advogados experientes.

Segundo levantamentos do Conselho Nacional de Justiça, a resposta penal no Brasil varia significativamente conforme o território, o perfil social e a capacidade de mobilização das famílias envolvidas. Não é apenas percepção. É padrão. Quem pode pagar por silêncio institucional costuma obtê-lo.

Por isso, insistir que o debate é sobre idade é desonesto. O que está em jogo é classe. É sobre quem o sistema escolhe proteger e quem ele escolhe esquecer com rapidez cirúrgica. É sobre quais vidas geram comoção e quais viram estatística.

Justiça que funciona apenas para alguns não merece esse nome. É privilégio disfarçado de legalidade. É ordem mantida à custa do esquecimento dos mesmos corpos de sempre.

Se não houver responsabilização, a memória não ficará em silêncio. Ela vai circular nas redes, nos muros, nos postes, nas ruas. Vai ganhar voz em protestos, hashtags e vigílias. A #justicapororelha não é um pedido. É um lembrete incômodo de que, enquanto a Justiça insistir em proteger reputações em vez de vidas, alguém seguirá cobrando aquilo que o sistema se recusa a entregar.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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