Ana passou a manhã tentando responder a uma pergunta que não saía da sua cabeça: o que é a dor? Não a dor física, essa ela sabia nomear como ninguém. A outra. A que se instala sem pedir licença e ocupa todos os cômodos da alma.
Para Ana, a dor era um vazio interior impossível de ser preenchido. Um espaço oco onde nada se encaixava direito e tudo fica desconfortável. Era a ausência do amor – não apenas do amor do outro, mas daquele que um dia ela teve por si mesma.
A dor se apresentava no fim das tardes de verão, quando o sol ainda insistia em iluminar o que, dentro dela, já era noite. Era o acender de mais um cigarro, não pelo vício, mas pela esperança tola de que a fumaça levasse embora a solidão. Não levava. Nunca levava.
Às vezes vinha em forma de bebida. Uma dose que descia quadrada, arranhando a garganta, como se o corpo quisesse punir a alma por ainda estar ali. Outras vezes, era a tela do computador, brilhante demais, ofuscando a visão e lembrando que o mundo seguia em movimento enquanto ela permanecia ali, parada, inerte a tudo e a todos.
Ana tinha a sensação constante de ter feito tudo errado. Olhava para trás e só enxergava decisões mal escolhidas, palavras que não deveriam ter sido ditas e silêncios que custaram caro demais. Não via saída. Apenas um corredor longo e escuro, sem portas.
Havia dias em que sentia escárnio por si mesma. Um desprezo silencioso, íntimo, que doía mais do que qualquer julgamento externo. Arrumava a cama com cuidado, como se ainda esperasse alguém, mas sabia: era apenas ela. Sempre fora apenas ela.
A dor, para Ana, era isso também: perder-se de si. Sentir falta do próprio eu, daquele que um dia sonhou, acreditou, insistiu. Era um vazio completo, em todas as dimensões possíveis.
O relógio na parede fazia questão de lembrá-la disso. Tic-tac. Tic-tac. Cada segundo dizendo que o tempo não espera, que ela já não tinha tanto tempo assim. O som de uma moeda caindo no chão ecoava pelo apartamento grande demais para uma pessoa só – cento e cinquenta e cinco metros quadrados de silêncio, soando como o sino de Vox Patris, distante, pesado, quase sagrado.
Ana sentia falta das pessoas que mais amou. Daquelas que prometeram ficar e não ficaram. Daquelas que a vida levou, o tempo afastou ou o orgulho expulsou. Acordava todos os dias sem propósito, apenas acordava.
Nas tardes de domingo, o canto do uirapuru atravessava a janela como uma ironia cruel. Tão bonito. Tão vivo. Tão distante do que ela sentia. O mundo lá fora seguia, indiferente.
A dor também era o descaso. O abandono. O burburinho da casa do vizinho, cheio de vozes, risos e cheios de vida, enquanto a mesa de Ana permanecia posta para ninguém.
E talvez, pensou ela, a dor fosse isso mesmo: estar inteira por fora e vazia por dentro. Sentar-se à própria mesa e perceber que a ausência mais dolorosa era a sua própria.
Ana respirou fundo. Não encontrou resposta definitiva para a pergunta que a atormentava. Mas, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu nomear o que sentia. E, para quem vive na dor, dar nome às coisas já é um pequeno começo.


