Existe um cansaço específico que nasce da performance. Não é o cansaço do trabalho duro nem da rotina longa, mas o esgotamento de quem passa o dia ajustando a própria existência para caber nas expectativas alheias.
Ensaiar falas, medir risos, suavizar opiniões, esconder traços que poderiam causar estranhamento. Esse desgaste não é abstrato. Ele aparece nos dados de saúde mental, no aumento do uso de antidepressivos, nas licenças por adoecimento psicológico e na sensação generalizada de inadequação que atravessa diferentes faixas etárias.
Ser exatamente quem se é logo de início não é imprudência. É método. Falar como se costuma falar, rir como se costuma rir, sustentar silêncio quando não há vontade de falar. Isso não afasta pessoas por acaso. Afasta por incompatibilidade real. Reduz relações baseadas em expectativa falsa e evita o investimento prolongado em vínculos que exigem renúncia constante de si mesmo.
Grande parte das relações fracassa não por falta de afinidade, mas por excesso de encenação. No trabalho, quantos permanecem anos em ambientes hostis porque aprenderam a desempenhar um papel funcional, ainda que emocionalmente insustentável. Na vida afetiva, quantos vínculos se mantêm pela manutenção de uma imagem inicial que nunca foi verdadeira. O custo disso aparece depois, em ressentimento, esgotamento e sensação de tempo perdido.
Assumir quem se é desde o começo não garante aceitação, mas produz clareza. E clareza é um ativo raro. Ela permite que o outro escolha com base no real, não no personagem. Permite que o “não” venha cedo, quando ainda é possível seguir sem danos profundos. Quanto mais cedo se entende que algo não é para nós, menos destrutivo é o desenlace.
Encontrar pessoas que também não performam não é simples porque a cultura da adequação é ensinada desde cedo. Aprende-se a agradar antes de aprender a discernir. Ainda assim, quando o encontro acontece, ele se sustenta em algo mais sólido do que afinidade superficial. Há espaço para discordância, frustração e conflito sem que isso signifique rompimento imediato. Não porque seja fácil, mas porque é honesto.
Lao-Tsé permanece atual porque distingue duas formas de poder que continuam sendo confundidas. Conhecer os outros exige observação. Conhecer a si mesmo exige enfrentamento. Controlar os outros pode produzir resultados rápidos, mas controlar-se produz consistência. Quem se conhece não precisa manipular. Quem se governa não depende da validação permanente.
Autenticidade não é virtude decorativa nem bandeira moral. É uma escolha prática com consequências mensuráveis. Reduz desgaste emocional, organiza decisões e impede que a vida inteira seja construída sobre concessões que nunca foram conscientes. Viver sem ensaios não elimina erros, mas garante que eles sejam próprios. E isso muda tudo.


