Sara Vaz é Mãe de Santo e vidente. Faz Mapa Astral, mede Aura, joga Búzios, Tarô, lê folhas de chá, borra de café e bola de cristal. Presencial e on line. Revende Natura, aceita encomendas de coxinhas e brigadeiros. Devido à liquidação do Master e à fiscalização do PIX pela Receita Federal, passou a cobrar uma galinha por consulta. Sem recibo. A vida de Sara Vaz não é fácil. Depois da Inteligência Artificial, os clientes minguaram e querem pagar só após o resultado. Nenhum esotérico previu.
Então, teve a ideia de convidar clientes VIP e observadores para discutirem a retomada das atividades. A anfitriã instalou os clientes VIP à direita e os observadores à esquerda, todos em desconfortáveis cadeiras de plástico. Ao centro, uma enorme pira queima incensos variados.
Após 40 minutos de rituais de purificação, mantras e chás, Sara Vaz iniciou os trabalhos. A coisa começou a descambar quando os VIPs, todos políticos de correntes opostas disputando o apoio dos esotéricos, passaram a fazer campanha, exaltar seus méritos e criticar os oponentes.
Com a ameaça de cadeirada, o ambiente descambou, mas Sara Vaz foi salva por dois observadores, a quem pediu para retomar o tema central. Porém, ambos focaram na política em vez de oferecer sugestões para aumentar a clientela e o faturamento dos videntes. Primeiro falou Mark Twain.
– Se votar fizesse alguma diferença, não nos deixariam fazer isso.
– Ninguém é suficientemente competente para governar outra pessoa sem seu consentimento – completou Abraham Lincoln.
Voltaram as agressões verbais entre os políticos, acusações de Fake News e xingamentos, de ignorante para pior. Concordaram apenas que a retomada do crescimento econômico no curto prazo é coisa de mentirosos, missão impossível.
– Uma vez eliminado o impossível, o resto deve ser a verdade – disse Sherlock.
– O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete – emendou Aristóteles.
Os candidatos se xingavam de tolo, débil mental e coisas impublicáveis. Não paravam de falar e Sara, atônita, calou-se. Lincoln não desperdiçou a oportunidade:
– É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é tolo, do que falar e acabar com a dúvida.
– Grandes conhecimentos geram grandes dúvidas – disse Aristóteles. Porém, até aqui, não vi conhecimento algum. Apenas ficção.
– A diferença entre verdade e ficção é que a ficção faz mais sentido – disse Mark Twain. Isso deveria parecer óbvio.
– O mundo está cheio de obviedades que ninguém enxerga – falou Sherlock.
Sara quer encerrar o evento, pois os observadores cobram por hora. Quando os políticos ameaçaram ir embora, notou que dois brasileiros ficaram calados o tempo todo e pediu suas considerações:
– Há sujeitos tão inábeis que suas ausências preenchem uma lacuna – falou Stanislaw Ponte Preta.
– De onde menos se espera, daí é que não sai nada – disse o Barão de Itararé.
– Hoje em dia, ninguém é bonzinho de graça – finalizou Ponte Preta.
Tudo certo e nada resolvido. O evento foi encerrado e os observadores evaporaram, sem cobrar. A cabeça de Sara Vaz latejava quando a copeira trouxe um copo de água e café forte.
– Onde foi todo mundo?
– Todo mundo quem, Madame?
– Mark Twain, Lincoln, Aristóteles, Sherlock, os brasileiros. Estavam aqui agorinha!
– A Madame confundiu os potes e tomou chá de cogumelo em vez de erva cidreira quando repunha livros clássicos na estante.
– Então não teve evento com clientes e personalidades?
– Não. A Madame pos maconha na incenseira, chapou e delirou a noite toda.
– Por que você não me acordou?
– E perder o Big Brother? Eu, heim!
– Alguma novidade na correspondência de hoje?
– Não. Só propagandas, cobranças e cartas de políticos pedindo doações para campanha.
O trabalho de vidente é insano. Se no Brasil, até o passado é incerto, como prever o futuro e receber somente após o resultado? O lado bom é que a granja de Sara Vaz já conta com 380 galinhas, mas comer omeletes todo dia é dose! Vida que segue. Ou não! Quem consegue prever?



Cada um tem a realidade que vê.