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sábado, 24 de janeiro de 2026

Vale tenta barrar estudos da UFMG sobre impactos da tragédia-crime de Brumadinho no STJ

Especialistas apontam que pesquisas são fundamentais para responsabilização e AVABRUM exige transparência sobre a extensão dos danos

A poucos dias do marco de sete anos da tragédia-crime de Brumadinho, a Vale apresentou recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que pode limitar a continuidade e os efeitos de estudos científicos conduzidos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O agravo interno pede a revisão de decisões que autorizam pesquisas técnicas em andamento sobre os impactos ambientais, sanitários e socioeconômicos do rompimento da barragem.

Entre os alvos estão estudos que avaliam contaminação do solo, da água e de alimentos, além de riscos à saúde das populações atingidas. Produzidas com base em critérios científicos reconhecidos, essas pesquisas subsidiam políticas públicas, decisões judiciais e medidas de proteção coletiva. Para as famílias atingidas, representam acesso à informação qualificada e instrumento essencial de defesa de direitos.

No recurso, a mineradora sustenta que os estudos não deveriam seguir produzindo efeitos após a homologação do acordo judicial. Caso o entendimento seja acolhido, pesquisas públicas e independentes podem ter seus resultados deslegitimados, reduzindo a visibilidade dos impactos ainda presentes no território.

Para o diretor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, Bernardo Campolina, a tentativa de barrar a divulgação é protelatória. “Ao evitar a transparência, adia-se a atribuição de responsabilidades. Esses estudos precisam ser feitos agora. Cinco ou dez anos depois, muitos efeitos se diluem”, afirma.

Para a presidente da AVABRUM, Nayara Porto, o cenário revela a dimensão prolongada dos danos. “A Vale quer censurar estudos e pesquisas que são muito ricos em informações sobre os impactos sociais e soluções para as comunidades atingidas”.

Dados preliminares apresentados pela UFMG no fim de 2025 indicam que, mesmo com os recursos da reparação, Brumadinho sofreu perdas estruturais expressivas. O prejuízo econômico acumulado pode chegar a até R$ 5,4 bilhões em duas décadas. A economia local tornou-se dependente de auxílios financeiros temporários, com aumento do custo de vida, retração do comércio e fragilização do turismo.

Para a presidente da AVABRUM “sete anos depois, Brumadinho segue refém de auxílios emergenciais. Eles são necessários para a sobrevivência imediata, mas não substituem políticas de desenvolvimento e diversificação econômica”, afirma Nayara.

Além dos estudos científicos, o recurso da Vale também questiona a atuação de assessorias técnicas independentes que acompanham comunidades atingidas. Para especialistas e entidades de vítimas, a medida ameaça mecanismos de transparência, controle social e fiscalização.

Autor:

Raul Mariano

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