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sábado, 24 de janeiro de 2026

A engrenagem que range

O sistema gira como uma máquina antiga, alimentada pelo esforço contínuo de muitos e pelo descanso permanente de poucos. Ele impõe ao cotidiano um cansaço que não é apenas físico, mas mental, suficiente para reduzir o tempo de pensar e fragmentar qualquer possibilidade de reação coletiva.

Jornadas extensas, deslocamentos exaustivos e renda insuficiente compõem um cenário em que a sobrevivência consome quase toda a energia disponível. Ao mesmo tempo, difundem-se narrativas que atribuem o fracasso à falta de mérito individual, naturalizando a pobreza como escolha e ocultando a lógica estrutural que produz desigualdade em larga escala.

No Brasil, essa engrenagem tem origem concreta. No período colonial, a economia do açúcar e, depois, do ouro e do café, sustentou-se na exploração extrema do trabalho escravizado, responsável por inserir o país no mercado mundial à custa de violência sistemática.

A abolição formal da escravidão, em 1888, não veio acompanhada de políticas de integração social ou acesso à terra e ao trabalho digno. Ex-escravizados foram lançados à marginalidade, enquanto o Estado incentivava a imigração europeia para suprir a força de trabalho, consolidando uma estrutura de exclusão racial e econômica que se prolonga até hoje.

A industrialização do século XX não rompeu com essa lógica. No início das fábricas, jornadas superiores a doze horas, trabalho infantil e ausência total de direitos eram práticas comuns. A legislação trabalhista só se consolidou após sucessivas greves e mobilizações, como as paralisações operárias das décadas de 1910 e 1920. A Consolidação das Leis do Trabalho não foi um gesto isolado de modernização, mas resposta direta à pressão social de trabalhadores submetidos a condições insustentáveis.

Mesmo após a ampliação de direitos, a engrenagem seguiu se ajustando. A partir dos anos 1990, reformas econômicas e processos de terceirização ampliaram a precarização. Hoje, milhões de brasileiros sobrevivem na informalidade, sem garantias básicas, enquanto a renda média do trabalho permanece baixa em comparação ao custo de vida. Ao mesmo tempo, dados sobre concentração de riqueza mostram que uma parcela mínima da população detém uma fatia desproporcional do patrimônio nacional, evidenciando que o crescimento econômico não se distribui de forma equilibrada.

A divisão entre trabalhadores sempre funcionou como ferramenta central desse sistema. Ao longo da história republicana, greves foram tratadas como ameaça à ordem, movimentos sociais como caso de polícia e direitos trabalhistas como entraves ao desenvolvimento. Em diferentes momentos, crises econômicas foram atribuídas ao excesso de direitos ou ao comportamento do próprio povo, desviando a atenção das decisões políticas e econômicas que beneficiaram setores específicos. O discurso da culpa individual reaparece sempre que o sistema entra em colapso.

Apesar disso, a história brasileira registra momentos em que a engrenagem foi tensionada. As lutas camponesas por reforma agrária, o sindicalismo urbano do final do século XX, as mobilizações por salário e direitos e, mais recentemente, a organização de trabalhadores por aplicativos revelam que a contestação surge da experiência direta da exploração. Sempre que houve redução, ainda que limitada, da desigualdade, isso coincidiu com organização coletiva e pressão social efetiva.

A engrenagem continua operando porque depende do cansaço, da fragmentação e da crença de que não há alternativa. Ela começa a falhar quando quem trabalha reconhece que a própria precariedade não é falha pessoal, mas resultado de um arranjo histórico. É dessa consciência construída no cotidiano do esforço e da injustiça que pode emergir a possibilidade de romper com um modelo que transforma o trabalho em desgaste permanente e a vida em mera sobrevivência.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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