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sábado, 24 de janeiro de 2026

Palavras que governam outros interesses

Ao longo da história brasileira, o engano não se impôs apenas pela força, mas pela repetição simbólica. Ele se tornou hábito quando certos termos passaram a ser usados como blindagem moral para projetos muito concretos de poder. Chamou-se de Pátria aquilo que, na prática, concentrava renda, terras e privilégios. Invocou-se Deus não como princípio ético, mas como ornamento retórico para legitimar hierarquias. Elevou-se a Família a slogan político enquanto políticas públicas essenciais eram abandonadas ou usadas como moeda eleitoral.

Esse mecanismo aparece desde a formação do Estado nacional. No Império, a ideia de unidade pátria convivia com a manutenção da escravidão e a exclusão da maioria da população da vida política. Na Primeira República, o discurso da ordem e do progresso ocultava um sistema de poder oligárquico sustentado por violência eleitoral e miséria rural. A palavra Pátria servia para convocar obediência, não para garantir direitos. O lucro de poucos avançava enquanto o custo social era tratado como inevitável.

A instrumentalização da religião segue o mesmo padrão. Em diferentes períodos, a linguagem religiosa foi mobilizada para justificar desigualdades, silenciar dissidências e naturalizar sofrimentos. Do apoio institucional à escravidão no século XIX à retórica moralista usada para barrar direitos civis no século XX e XXI, Deus foi frequentemente convertido em argumento de autoridade, não em critério de justiça. O sagrado virou ferramenta de poder, esvaziado de compromisso com a dignidade humana que dizia defender.

A noção de Família, por sua vez, foi recorrentemente usada como recurso político oco. Em nome dela, ignoraram-se políticas de saúde, educação e assistência social que sustentam famílias reais, concretas, atravessadas por pobreza e desigualdade. Durante a ditadura, o discurso da defesa da família conviveu com tortura, censura e desaparecimentos. Em tempos recentes, reapareceu como slogan enquanto indicadores sociais revelavam aumento da fome, da informalidade e da insegurança alimentar. A palavra permanecia limpa; a realidade, não.

Enquanto esses símbolos operavam como máscara, o custo recaía sobre o corpo social. Trabalhadores arcavam com jornadas precárias, populações periféricas com violência cotidiana, comunidades inteiras com a ausência do Estado. O silêncio não era consentimento, mas sobrevivência. O sangue não era acidente, mas consequência previsível de escolhas políticas feitas longe de qualquer escuta real. O engano não foi episódico, foi organizado.

A persistência desse padrão explica por que ainda hoje é difícil enxergar suas bordas. Quando o discurso se repete por gerações, ele deixa de parecer mentira e passa a parecer tradição. Questioná-lo soa como ameaça, mesmo quando os dados históricos e sociais mostram seus efeitos concretos. O hábito do engano cria uma cultura em que símbolos valem mais que resultados, e palavras substituem políticas.

Nada disso ocorreu por acaso. A história brasileira registra projetos claros de dominação sustentados por linguagem emotiva, moralizante e seletiva. O discurso bonito não era erro de cálculo, era parte do método. Ele servia para dividir, distrair e legitimar, enquanto decisões reais eram tomadas em benefício restrito. A traição não foi um desvio; foi estrutura.

Romper com esse ciclo exige mais do que trocar palavras de ordem. Exige retirar os símbolos do pedestal retórico e confrontá-los com seus efeitos materiais. Pátria que exclui não é pátria. Fé que legitima injustiça não é virtude. Família usada como slogan sem política pública é apenas propaganda. Enquanto essas distinções não forem feitas com clareza histórica e responsabilidade coletiva, o engano continuará confortável para poucos e insuportável para muitos.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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