Quando jogar bola deixou de ser expressão.
O futebol brasileiro já foi sinônimo de improviso, criatividade e jogo livre. Jogava-se com personalidade, naturalidade e leitura própria do jogo. Hoje, porém, o que se vê em campo é um jogador genérico, travado, sem brilho. Aquilo que antes era exceção, o atleta inseguro, sem leitura e sem ousadia, acabou se tornando regra. E isso não aconteceu por acaso.
O jogador como mercadoria.
Na prática, o jogador brasileiro deixou de ser sujeito e virou produto. Desde muito cedo, ele é moldado para ser vendido. Sua função já não é jogar futebol, mas agradar empresário, scout europeu e clube estrangeiro. Para isso, arrancam tudo que é brasileiro: a ginga, a ousadia, a malícia, a alegria e a criatividade. Em troca, oferecem ”obediência tática”, corpo forte e cabeça vazia. O resultado é um jogador sem identidade, que cresce sem saber quem é, de onde veio ou a história do próprio país.
Colonização moderna dentro de campo
Esse processo não é neutro. Ao contrário, trata-se de uma colonização moderna. O futebol seguiu o mesmo caminho do país: perdeu o orgulho de si mesmo. Treinadores repetem discursos europeus como dogma, jornalistas aplaudem qualquer ideia importada, e o jogador passa a acreditar que precisa reaprender a jogar. Como se o jeito brasileiro estivesse errado.
A comparação que incomoda.
Enquanto isso, argentinos, uruguaios, colombianos e equatorianos jogam com identidade. Podem até ter menos mídia e menos dinheiro, mas sabem quem são. O brasileiro, por outro lado, vai para fora sem referência, tentando se encaixar. Consequentemente, não é totalmente aceito lá fora nem reconhece a si mesmo aqui. Vira uma deformação: nem lá, nem cá.
O problema não é técnico, é político.
O buraco vai muito além do campo. Na verdade, está na cabeça. Falta leitura de jogo, falta cultura, falta consciência histórica. O problema nunca foi técnico. Sempre foi político. Um sistema que forma jogadores obedientes, mas não pensantes, não cria craques — cria peças substituíveis.
Identidade não é romantismo.
Costumam dizer que resgatar a identidade brasileira é romantismo. Mas não é. É o mínimo. Porque no estado atual, o futebol brasileiro está deformado, sem rosto, sem alma. E isso não vai mudar com curso europeu de treinador ou palestra motivacional de empresário. Só muda quando houver ruptura com essa lógica de dependência e submissão.
Mais do que futebol, é sobre quem somos.
No fim das contas, o que está em jogo não é apenas o futebol. É a identidade de um país inteiro. E o que se vê hoje em campo é apenas o reflexo do Brasil: desfigurado, colonizado e sempre pronto para servir.


