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sábado, 24 de janeiro de 2026

Pausa necessária

Há dias em que a casa parece conspirar contra a saída. A chave some do lugar de sempre, a roupa escolhida revela uma mancha que não estava ali minutos antes, a mão já no portão é puxada de volta pela dúvida sobre o fogão. A reação automática é ficarmos irritados. O relógio corre, a agenda aperta, a pressa acusa. Mas o cotidiano brasileiro, feito de atrasos crônicos, transporte imprevisível e urgências fabricadas, talvez ensine outra leitura para esses pequenos tropeços.

Vivemos treinados a superar o tempo, não a ouvi-lo. O atraso virou falha moral, como se chegar depois fosse sempre um sinônimo de desleixo. Ainda assim, o país que aprende a esperar em filas intermináveis, a recalcular rotas por causa da chuva súbita, a refazer planos por falta de ônibus, também conhece o valor do compasso. Entre a porta e a rua existe um intervalo mínimo que quase nunca respeitamos. É ali que o corpo sinaliza antes da razão formular.

A psicologia chama essa pausa de intuição, a neurociência fala em processamento rápido de padrões, a cultura popular chama de aviso. Não importa o nome. Importa o efeito. Em 2019, o trânsito brasileiro registrou mais de 30 mil mortes, segundo dados oficiais, muitas associadas à pressa, distração e decisões apressadas. Um atraso de quinze minutos não salva o mundo, mas pode mudar o encontro, a rota, o contexto. Pode evitar o cruzamento errado, o ônibus lotado demais, a rua fechada que não estava no mapa.

Esses pequenos impedimentos domésticos funcionam como freios improvisados. Não são místicos nem milagrosos. São convites ao cuidado. Trocar a roupa com calma, respirar enquanto procura a chave, voltar para conferir o fogão é também reassumir o controle sobre o próprio ritmo.

Há uma ética silenciosa nesse atraso consentido. Ele não promete livramentos espetaculares nem histórias grandiosas para contar depois. Oferece algo mais modesto e mais raro: atenção. Atenção ao corpo inquieto, ao pensamento acelerado, ao entorno que pede pausa. Deixar acontecer o que precisa acontecer, ainda que seja apenas um minuto de silêncio antes da rua.

Quando a casa atrasa a saída, talvez não esteja impedindo o caminho, mas ajustando o passo. O dia não acaba porque se saiu depois. Às vezes, ele começa melhor justamente porque a pausa ao sair se faz necessária.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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