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sábado, 24 de janeiro de 2026

Rotas distintas

Existe um momento concreto em que a amizade deixa de ser suposição e vira fato observável. Ele aparece quando o convite para um café no meio da semana nunca se encaixa, quando a resposta no WhatsApp vem dois dias depois com um “correria” genérico, quando o encontro anual no aniversário é mantido mais por educação do que por vontade.

No Brasil da jornada estendida, do transporte lotado, do acúmulo de tarefas e cansaços, o tempo acaba funcionando como um critério silencioso de prioridade. E nem sempre a amizade continua sendo uma delas.

Muita gente insiste porque confunde história com presença. Foram anos dividindo ônibus, faculdade, trabalho, dificuldades financeiras, conquistas pequenas e grandes. A memória pesa. O problema começa quando essa lembrança passa a ser o único elo. O presente já não oferece troca real. A conversa gira em torno de notícias distantes, comentários rápidos sobre política, trabalho ou problemas genéricos, sem aprofundamento, sem escuta verdadeira. Não há conflito, mas também não há interesse genuíno.

Na prática, isso se revela em situações corriqueiras. Um amigo muda de emprego, melhora de vida, muda de bairro, muda de rotina. O outro permanece em outra realidade, com horários incompatíveis, preocupações distintas, urgências mais imediatas. O encontro exige esforço apenas de um lado. Quem insiste sente que precisa explicar demais, justificar demais, insistir demais. A amizade passa a gerar mais desgaste do que acolhimento.

Aceitar esse afastamento não significa romantizar o desapego, nem fingir indiferença. Dói reconhecer que alguém importante já não cabe na mesma frequência emocional. Mas insistir produz um efeito perverso: transforma lembranças boas em frustração acumulada. O que antes era afeto vira cobrança silenciosa. O que era espontâneo vira obrigação.

A maturidade, nesse ponto, não está em manter o vínculo a qualquer custo, mas em compreender que relações também obedecem ao contexto social, econômico e emocional de cada fase da vida. Algumas amizades acompanham somente determinados trechos do caminho. Elas não falham por isso. Apenas cumprem sua função e se encerram sem alarde, como tantas outras coisas no cotidiano brasileiro que acabam sem anúncio, apenas porque o ritmo mudou.

Reconhecer esse limite é uma forma de cuidado consigo e com o outro. Evita ressentimentos, preserva o que foi vivido e abre espaço para relações que nascem do presente, não da insistência no passado.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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